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Mandume, novo clipe do Emicida não é sobre resistência

Na última segunda (5), Emicida lançou o clipe de Mandume, faixa do álbum “Sobre Crianças, Quadris, Pesadelos e Lições de Casa“. O clipe conta com a participação de Drik Barbosa, Amiri, Rico Dalasam, Muzzike e Raphão Alaafin, e atende todas as expectativas da letra lacradora da canção que leva o nome de um ícone da resistência africana.

Vejaaa!

Não é sobre resistir.

O filme arrepia pela representatividade das ruas e pelo empoderamento das causas sociais. No entanto, mais do que resistência, o enredo reflete a virada social que vivemos e fortalece a ideia de ocupação.

A resistência fica para trás.

Ficou com Zumbi que ousou ser livre durante a escravidão, ficou com a minha avó que segue com sanidade psicológica depois de o machismo ter assassinado sua mãe, ficou com os viados que tiveram a ousadia de se assumir antes da OMS retirar a homossexualidade da lista de distúrbios mentais.

Estamos longe de estarmos socialmente seguros e a resistência sempre será necessária para que não haja regresso nos direitos conquistados com muita luta. Porém, já podemos encarar a resistência como uma etapa lindamente cumprida por nossos antepassados, uma etapa de um plano maior que agora avança de nível.

A parada agora é ocupar.

A cena da banca de jornal e os versos finais de Mel Duarte ilustram muito bem esse momento social em que as pautas ganham vozes e força suficiente para mais do que resistir à dura realidade, transformá-la. Seja nas bancas, nas redes ou nas ruas, seja por bem ou por mal, nós estamos ocupando.

E com isso, a casa grande pira.

O ressurgir, quase que das cinzas, da extrema-direita por todo o mundo revela que a opressão sentiu a perda de espaço e está contra atacando. Eles não gostaram nada nada de termos saído da cozinha, dos terreiros, dos armários, das fronteiras. “RESISTAM AI DE DENTRO!”, é o que eles ordenaram e não estamos escutando, porque graças a Oxalá, conquistamos voz, vez e autoridade suficiente para dizermos mais alto:

Late que eu tô passando.

Cabe ao conservadorismo então, assumir o papel da resistência agora. A resistência de valores hipócritas do século passado, a resistência de ideologias opressoras, a resistência do medo à diversidade, a resistência da ignorância cultural.

A bola não foi passada, foi empurrada, por meio de um papo bem reto a todos que insistem calar a igualdade.

Resistam se forem capazes.

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ComportamentoExperiênciasMúsicaReflexões

Que grave é esse que teu bumbum balança?

[ coloque sua batida preferida para ler esse texto ou escute essa aqui ]

Já sabemos que a cultura é uma das ferramentas mais sinistras para quebrar barreiras sociais, como preconceitos e esteriótipos. Já falamos inclusive, por aqui e por aqui, como a música pode ajudar no processo de desconstrução pessoal também.

E agora, apresento a vocês mais uma grande arma contra a intolerância:

A bunda e seu balançar.

A origem do rebolado da dança remonta a pré-história e começou em diversas culturas com batidas, sincronizadas ou não, dos pés no chão e/ou de palmas. Usada exclusivamente para rituais religiosos, os movimentos buscavam conectar o povo à algo superior, transcendental.

Com o desenvolvimento cultural e humano, a dança se desenvolveu pelo mundo e pelo nosso corpo, saindo de nossos extremos, mãos e pés, e indo em direção ao nosso centro cada vez mais, nossa cintura, nossa BUNDA!

Dançar, hoje em dia, não é mais uma ação exclusiva à rituais religiosos, mas continua tendo sua importância transcendental ao nos reconectar com formas e culturas passadas, seja de séculos atrás ou da noite anterior.

Se eu rebolo, logo existo

Além do caráter social, a dança também é prova da individualidade humana, promovendo cada face desse mundão, que ao dançar empodera seus próprios membros através de uma forma exclusiva de se apresentar ao mundo, de BOTAR A CARA NO SOL.

Ser é ser percebido e bater o pé, a cabeça ou bater o cú é dizer para si mesmo e para o mundo: OLHEM O QUE A CAPACIDADE DE SER EU, ME PERMITE FAZER.

Por que parou, parou por quê?

Com a linda diversidade cultural que existe no nosso mundo, triste é aquele que ainda não encontrou um estilo ou música perfeita que o faça sair do chão, ou descer até ele.

E se já encontrou e fica se policiando para ficar parado sempre que toca, OPRIMIDO ÉS TU. Vamos tratar isso aí,  parça. Tá com medo de dizerem que você não sabe dançar? Ninguém tem esse direito.

Que doido seria você não sorrir do seu jeito porque dizem que é errado,
Que doido seria você não poder se vestir do seu jeito porque dizem que é errado.
Que doido é você não amar do seu jeito, porque dizem que é errado.
Que doido é você ter vergonha de curtir a batida que você ama porque dizem que é errado.

É errado ser você?

Rebole, desça até o chão, sambe na cara dos preconceitos, ou se preferir, bata o pezinho em cima dos esteriótipos e de quem acredita que pode calar quem você é.

Depois diga pra mim que grave é esse que teu bumbum balança e vamos dançar juntos, com tanta gente se movendo vai ser difícil sustentar barreiras tão irracionais. E se alguma barreira persistir te incomodar, aumente o volume e dance a su manera, só não represe a força transcendental da música pelo seu corpo.

Viva o grave, viva o agudo, viva você!

BÔNUS:

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CriatividadeExperiênciasModaMúsica

Bitch, I’m Madonna

No mês passado, dia 16/08, a rainha do pop, Madonna Louise Ciccone, completou 58 anos. E se você nunca viu com olhos atentos as várias transformações dessa camaleoa, nós vamos mostrar como seu trabalho influenciou e continua inspirando moda.

Madonna sempre teve um estilo audacioso e desde que lançou seu primeiro álbum auto-intitulado nos anos 80, mudou a maneira de vestir e o comportamento de muitas mulheres mundo afora. O meio da música dessa época foi marcado por hits como Like a virgin e um visual cheio de rendas, babados e rebeldia. Seus looks e performances faziam contraponto entre sagrado e profano, e gritavam na cara da sociedade a libertação sexual, principalmente feminina (coisa que mais de 30 anos depois ainda continua sendo tabu em alguns pontos).

                  Madonna início da carreira

O vestido de noiva com o cinturão Boy Toy usado pela cantora na edição do VMA de 1983 e sua apresentação provocativa despertaram além dos olhos da crítica musical  e claro dos religiosos de plantão, também a curiosidade de quem ditava moda naquele momento. E na sua primeira grande turnê no início dos anos 90, a Blond Ambition Tour, Jean-Paul Gaultier cria seu figurino mais marcante até hoje, o famoso sutiã em formato de cone, que enfatizava as formas do corpo feminino e juntamente com as coreografias eróticas, fizeram o papa João Paulo II mobilizar os fiéis a não comparecerem aos shows. O que parece só ter gerado ainda mais mídia em torno do nome da artista.

Com um histórico marcado por rebeldia e sexualidade explicita em seus trabalhos, em 96 Madonna surpreendeu o público em geral ao interpretar Eva Perón no cinema. A partir daí, e com o nascimento de sua primeira filha, Lourdes Maria, no mesmo ano a cantora inicia uma nova fase também em sua música, onde se mostra mais maternal e influenciada pelo misticismo oriente da Cabala.

Madonna em suas várias transformações visuais

Em sua turnê seguinte, Drowned World Tour de 2001, depois de quase 8 anos longe dos palcos, a Diva trás um figurino com várias influências que vão desde os tradicionais trajes escoceses, passando pelo country americano, até a milenar cultura japonesa. Os looks criados por Gaultier, Dsquared e Arianne Phillips viraram uma forte tendência de moda, e todas as grandes marcas e as fast fashion do mundo tinham coleções com essas referências em suas lojas.

Daí em diante, várias das imagens construídas para os seus shows como no caso da Confessions on a dance floor tour, que trouxe de volta a moda os brilhos dos embalos de sábado a noite para as passarelas e ruas, Madonna já passou por várias facetas sempre se reinventando seja em parcerias com novos estilistas, ou se arriscando em novos estilos musicais.

Além disso no decorrer de sua trajetória já foi embaixadora de marcas de renome como Versace, Dolce & Gabanna e Louis Vuitton. E recentemente criou uma linha de roupas em parceria com sua filha, a Material Girl, que faz referência a um de seus grandes sucessos do início da carreira.

Campanhas de moda

Com tantos atributos artísticos e de personalidade única, fica até difícil de dizer se a rainha do pop sempre se inspirou na moda, ou se essa sempre irá buscar referências na grande mulher que é Madonna. God save the Queen!

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Cinema e tvExperiênciasMúsica

“The Get Down”, a nova série do Netflix que narra surgimento do hip hop nos anos 1970

Netflix não cansa. Além de ser uma revolução para todo o mercado audiovisual, também é referência de produções super iradas. Vai desde “House of Cards“, falando sobre política, até “Narcos” contando toda história de Pablo Escobar. E agora não será diferente quando se fala sobre hip-hop, porque a partir do dia 12/07 eles vão disponibilizar mais uma nova produção, “The Get Down”.

Uma série que conta com 13 episódios, dirigida por Baz Luhrmann, renomado diretor de “Moulin Rouge” e “O Grande Gastby”, e conta a história do surgimento do hip-hop através de um grupo de jovens que moram no sul do Bronx, bairro de Nova York, que se armaram de latas de spray, passos de danças e rimas musicais para mudarem suas vidas.

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Jaden Smith fará uma participação como um grafiteiro chamando “Dizzee”, e a trilha sonora exclusiva foi produzida pelo rapper NAS, que é também produtor executivo do programa.

A série mostra toda a rivalidade entre as gangues locais de Nova York, na década de 70 (em 1977) e conta também com boates de disco e funk. Tendo personagens de nomes importantes no cenário, como o DJ Grandmaster Flash, figura da época, que incentivava o público das casas noturnas onde tocava a improvisar no microfone, seguindo o ritmo da música, criando rimas no freestyle.
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O figurino da série também está sendo um dos grandes destaques, já que lidamos com uma época de transição na moda. Para a figurinista Jeriana San Juan, a década de 1970 representou uma grande mudança no modo das pessoas se vestirem: a distinção sobre se vestir com uma peça específica para um local ou ocasião foi aos poucos sendo contestada, inserindo itens esportivos – fazendo referência aos garotos que começaram a ir às boates de tênis.

Assista o trailer da série abaixo:

E não esquecendo, é foda ter ainda mais representatividade para um movimento que vem ganhando muita força.

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ComportamentoExperiênciasMúsicaReflexões

A geração do single

Acordamos ao lado de telefone e já recebemos um milhão de atualizações. São conversas com amigos, notícias do dia, coisas fofas, coisas engraçadas, memes, músicas, tragédia, felicidade, textão, desabafos, fotos (respira um pouco…), publicidade, vídeos, tirinhas, reportagens, enfim, conteúdo de todas as formas e maneiras.

Inclusive é muito difícil organizar tudo isso, juro que me perco em tudo que quero ler, saber e guardar. Seja lá a forma, estou sempre tentando me achar e me organizar no meio dessa tonelada de informações. Muitas desaparecem e muitas eu guardo pra sempre. Tento usar o máximo de ferramentas que me permitem deixar isso acessível da melhor forma, seja bloco de notas, links salvos no face, o importante é eu conseguir acessar um dia.

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Meu bloco de notas, pra deixar claro pra vocês que é tanta informação que nem eu sei o que é o que.

E isso também vale pra quando falamos de música. É tanta coisa nova pra escutar que continuo me perdendo (inclusive quero deixar meus votos de felicidade ao Spotify, que facilitou e muito minha vida). Ainda mais agora com essa moda de lançamento de Singles e EP’s, deixa tudo muito jogado no ar, sabe?

Fico até feliz quando algum artista lança um álbum completo, como foi o caso do Kendrick lamar, com ”To Pimp A Butterfly” ou Alt-J, com “This is All Yours”. É legal quando vemos que o artista tem o prazer de criar um trabalho amplo e não ir jogando faixas aleatórias por ai. Não que seja uma forma ruim de trabalhar, mas eu particularmente gosto de ouvir as músicas e conseguir explorar todo o trabalho do artista de acordo com o momento atual dele.

É como acompanhar toda mudança e amadurecimento do artista. É entender todos seus estados e ter uma compreensão mais ampla sobre sua arte.

Como a evolução da tecnologia teve papel nisso

Na minha base de pensamento, acredito que um dos motivos disso tudo é o excesso de informação com a evolução da internet.

Nas décadas de 40 e 80, por exemplo, não tínhamos tanto acesso a informação. Era rádio, TV e jornal apenas. Isso sem contar que não existia a possibilidade de guardar milhares de músicas em um iPod de 10cm. Existiam vinis e CD’s. Tínhamos que ter a paciência e cuidado, inserir eles no toca discos, dar play, para ai sim podermos descobrir o que gostávamos do artista e o que ele queria passar com sua arte.

Involuntariamente era um estudo, éramos “obrigado” a ouvir tudo aquilo. Sem contar o cuidado que se tinha com cada vinil ou CD, era um bem precioso e que exigia um grande cuidado. Ou seja, o valor existia até na parte material da música.

Já hoje, escutamos todo tipo de música, a todo instante. É literalmente uma surra musical.

Caímos num ponto que podemos perceber que não é só uma atitude comercial do tipo “Vou fazer essa música chiclete pra colar, gerar lucro e é isso”, é uma questão cultural também, onde toda nossa forma de ver a música e outras artes continua mudando. É claro que não há apenas o que reclamar, aliás, hoje temos fácil acesso a uma diversidade que não tínhamos. Porém, devido ao excesso, o senso crítico cai um pouco e a paixão por cada álbum deixa de existir.

Não dedicamos nosso tempo pra entender como funciona cada músico e cada momento que tenta ser refletido nos álbuns.

Hoje são pouquíssimas as pessoas que tem a paciência de estudar um artista, ou escutar tudo o que ele tem para mostrar, afinal, uma música não diz sobre o trabalho de um cara que faz 20, concorda?

Eu, por exemplo, passei a ter o hábito de escutar tudo o que for possível de um artista, mesmo que eu tenha acabado de conhecê-lo. Acho que dessa forma, posso ter um senso crítico maior sobre toda sua obra.

Não que você não possa gostar de uma música apenas, mas acho que temos que ser mais amplos e poder entender melhor o que cada músico quer passar com sua arte. Ignorar esse trabalho é ter uma visão limitada, é como você ter uma mesa de docinho de festas, disponível na sua frente e só pegar o brigadeiro, ao invés de se lambuzar com toda quantidade de doces.

E o melhor de tudo, música não engorda.

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ExperiênciasMúsica

50 Anos dos Mutantes e um pouco sobre rock psicodélico

O grupo originalmente formado por Rita Lee, Arnaldo Baptista e Sérgio Dias, além de ter feito parte do movimento tropicalista, marcou o Brasil com sua música vanguardista e original.

Discos com cores misturadas e vivas, guitarras alucinantes e sonoridades distintas, são algumas das características dos Mutantes. A banda, de 1966, criou uma melodia brasileira com influências do som que estava bombando no exterior.

Front

Contracultura

O rock psicodélico surgiu na metade da década de 60. Este período foi marcado pela radicalização dos movimentos jovens que agiam contra a cultura, ou seja, se conduziam de forma contrária aos valores estabelecidos pela sociedade. Além disso, surgia uma nova experimentação de vida, de culto à paz e de misticismo e uso de drogas. Todos esses traços são facilmente encontrados tanto nas melodias como nas letras.

No contexto mundial, podemos dizer que há dois berços do rock psicodélico: Londres, de forma mais contida, e Califórnia, com uma música um pouco mais descontrolada e improvisada. No lado inglês, a primeira fase do Pink Floyd marcou o rock psicodélico com um dos fundadores da banda, Syd Barrett. Ele fazia um consumo excessivo de LSD e morreu em 2006, diagnosticado com esquizofrenia. No chão americano, Grateful Dead ficou famosa pelas músicas de meia hora e por dedicar metade de um LP para a improvisação de solos de guitarra.

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Uma das bandas que também foi por esse caminho, foi The Beatles que, em sua primeira fase, criava músicas mais bobinhas e românticas como “I want to hold your hand”, de 1963. No auge da psicodelia, lançaram em 1967, “Lucy in the Sky with Diamonds”, acrônimo para LSD.

De acordo com Paulo César Araújo, professor de MPB da PUC-Rio, os Beatles foram uma das maiores inspirações para os Mutantes:

“Os Beatles estavam na fase psicodélica com discos inventivos, de experimentação de sons, uso de guitarras distorcidas. Isso somado à criatividade dos Mutantes, foi um sucesso. A Tropicália foi essa junção de música erudita com a música pop mais inventiva”. – Os Mutantes ao lado de Gilberto Gil, Caetano Veloso e outros cantores lutavam, através do movimento tropicalista, pela incorporação da cultura jovem mundial, ou seja, o uso da guitarra elétrica e de elementos psicodélicos no som.

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Resistência

Mesmo com músicas criativas e letras que excitavam a imaginação, a banda não recebeu o apoio de uma parte do público brasileiro. E foi no festival de Música Popular Brasileira de 1967 que Os Mutantes viram o “apartheid”, como diz Paulo César, em relação às opiniões dos brasileiros sobre a importação dos recursos sonoros:

“Uma parte do público mais engajada em relação a protesto, mais nacionalista que defendia o samba, reagiu contra isso, porque via nessa linguagem do rock uma entrega ao imperialismo. O rock nesse contexto não tinha prestígio, era visto como uma música imperialista que vinha para dominar a música brasileira. Qualquer artista que se alienava a essa cultura pop era taxado de alienado, de alienígena”.

Porém, mesmo com toda resistência, o movimento psicodélico dos anos 60 deixou seu legado no rock nacional, tornando Os Mutantes um dos principais grupos do rock brasileiro e nos fazendo parar e pensar. Às vezes não fazia sentido algum, às vezes fazia. Depende do ouvinte. Como diz a música dos Mutantes, “Balada dos Loucos”:

“Eu juro que é melhor não ser o normal”

 

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MúsicaReflexõesSocial

Após polêmica, Braza decide reeditar o clipe “Embrasa”

Mostrando estarem atentos não apenas aos elogios, mas também às críticas, a banda carioca BRAZA, compostas por ex-integrantes do Forfun (Danilo Cutrim, Vitor Isensee e Nícolas Chris), deu um passo atrás e decidiu reeditar e lançar novamente o clipe da musica “Embrasa”.

Com letras fortes e influências rítmicas encontradas no rock, reggae, rap e no dub, a música “Embrasa” apresenta essa pegada musical da banda e tem como tema a batalha do trabalhador brasileiro que, depois de todo esforço cotidiano, quer ir para maracangalha, bailar depois da batalha.

A polêmica que levou a banda a reeditar o clipe ocorreu devido a uma cena em que uma atriz aparece ”rebolando” sensualmente. A cena tinha o objetivo de criticar padrões de beleza culturalmente impostos em nossa sociedade, mas a cena também poderia ser mal interpretada como objetificação da mulher. Ninguém melhor que a própria banda para esclarecer e reconhecer o deslize, segue a nota de esclarecimento lançada página oficial da banda no Facebook.

“Após refletir bastante, resolvemos reeditar o clipe de Embrasa.

Usamos as cenas em que uma atriz rebola sua “bunda” como uma tentativa de provocar, e mostrar um outro padrão de beleza, diferente do ditado nas grandes plataformas midiáticas.

Porém, nesse caminho, esbarramos em outra questão importante: a opressão da mulher na sociedade, e a história sistêmica da exploração do seu corpo.

Apesar da intenção inicial ser diversificar, propondo outro padrão de belo, acreditamos que a forma não foi a mais adequada, e corrobora, independente da intenção, com a objetificação da mulher.

Coletamos muitas opiniões, debatemos, e chegamos a essa conclusão.

Não vemos problemas em reconhecer um equívoco, voltar atrás e mudar de idéia. Nem em “perder” os “views” que o clipe já tinha.

Acreditamos que esse não é o “certo”, mas o melhor a se fazer, de acordo com o que pensamos e sentimos neste momento.

Aproveitamos a situação para abrir aqui um debate, afim de que vocês também expressem seus pontos de vista livremente, emitam suas opiniões sobre a cena, a função social da arte, o padrão de beleza vigente, e a exploração do corpo da mulher na sociedade brasileira e mundial.

Salve a mulher, e abaixo a ditadura do “belo”.”

Esclarecimento feito, a banda não apenas reconheceu o equívoco da mensagem como também decidiu corrigi-la. Atitudes como essa não podem passar despercebidas. É importante ouvirmos opiniões diferentes das nossas. Ao expor uma mensagem, por mais inocente ou positiva que seja nossa intenção, precisamos estar atentos e abertos às críticas. Vivemos em sociedade, somos todos sócios, por isso, meus sinceros parabéns para os rapazes da BRAZA em reconhecer e promover o debate, agora segue o baile.

Tem uma opinião sobre isso ou quer acompanhar o diálogo aberto? Clique aqui para acessar a postagem original.

Veja abaixo o clipe reeditado:

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ExperiênciasMúsica

A genial loucura de Tom Zé

“Excêntrico” pode parecer uma palavra clichê ou superficial, mas não quando estamos falando de Tom Zé. Segundo o dicionário Aurélio, excêntrico é aquele que está “situado longe do centro ou da parte mais frequentada da povoação”. E assim podemos definir em essência o show do Tom Zé.

No último sábado, 30 de abril, fui até o Circo Voador apreciar mais um show de um dos meus artistas preferidos (inclusive dei o nome dele a um cachorro que tive na infância 😛 ). Já fazia um ano que não via Tom Zé ao vivo e isso me fez criar muita expectativa.

Cheio de desenvoltura no palco, Tom Zé ainda me surpreende no alto de seus quase 80 anos de uma vida dedicada quase toda dedicada à arte. Tão fortes quanto suas músicas são suas palavras em cima do palco, tudo na ponta da língua, nada fica para depois: política, geração y, grande mídia, entre outros assuntos que surgiam em sua cabeça e ele não exitava em expôr.

Em alta agora na TV, Tom Zé ironizou sua repentina reaparição na grande mídia depois de anos à margem dela:

“Do nada, depois de anos, eu virei o galã das novelas”.

Em “Velho Chico”, novela das 21h da Rede Globo, Tom Zé marca presença com 3 músicas: “Dor e dor”, “Senhor Cidadão” e “Um oh! E um ah!”.

Tom Zé é um artista ímpar, fora do centro, sem meio termo, daqueles que amamos ou odiamos. Se você ainda não conhece seu legado, indico três músicas que não saem da minha playlist.

Tribunal do Feicibuqui

Geração Y

XiqueXique

E se em toda loucura pode haver genialidade, tá aí um grande exemplo de um louco genial e totalmente nu de barreiras e preconceitos.

Vida longa, Tom Zé!

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ExperiênciasMúsicaReflexõesSocial

A Música resumida ao Social e Cultural

Há alguns dias estive refletindo sobre como adquirimos nosso gosto musical e até onde uma música pode ser classificada superficialmente como ruim ou boa (ou se essa deve ser realmente a forma de classificação).Não foi necessário muito tempo de reflexão para perceber que as pessoas mais tolerantes ao meu redor, também eram as mais ecléticas no que diz respeito à música. E foi seguindo essa linha de raciocínio que ficou claro pra mim que nosso “gosto musical” é, nada mais e nada menos, que uma opinião que reflete todo o contexto social e cultural onde estamos envolvidos.

Do que eu to falando? Resumidamente, minha conclusão é de que os locais que frequentamos, as pessoas com quem vivemos e até mesmo filmes e séries que assistimos, são responsáveis por moldar tudo aquilo que achamos daquilo que ouvimos. Tudo pode influenciar! Desde o relacionamento com os pais, amigos, amorosos, shows e festivais, etc. São essas experiências que detêm toda nossa linha de influências culturais que resultam nesse “achismo” denominado gosto.

Como escutar algo novo se nem ao meu redor ela se encontra? Para isso é necessário quebrar algumas barreiras.

Dito isso, precisamos ser mais abertos ao novo! Afinal, é sendo mais tolerante diante de outras culturas musicais que conseguimos perceber a quantidade de coisa muito boa que existe por ai, mas na maioria das vezes não estivemos abertos a escutar.

Vamos combinar, temos que ir muito mais além da nossa bolha para, de fato, descobrirmos
nossos gostos.

Me pegando como exemplo, antes de começar a sair para festas com os amigos, minha família sempre teve influências musicais com base no Rock e na MPB, consequentemente, essa sempre foi minha classificação de “música boa”. Mas ao conviver com novas amizades, aos poucos meus gostos foram mudando. Se poucos ouviam o que eu classificava como “música boa” ou taxavam como “música de maluco” (coisa com a qual nunca me importei com e sempre dei risadas), eu me permiti conhecer o novo e me adaptei.

(Sobre amplitude e a diversidade das músicas, vale a pena dar uma conferida no texto do Raphael Bueno ” Tchau, Preconceito Musical ”)

Mas a verdade é que a música é feita para momentos e existem de todos os tipos, como aquela que é perfeita para ouvir em um show, ou aquelas que botam a galera para “bater cabelo” nas festas ou algumas para o momento deprê dentro de casa. Provas disso são propostas de sucesso como o Spotify ou o Superplayer, que oferecem diversas opções de playlists para se enquandrar nas mais distintas situações, que vão desde o tradicional “Almoço em família” até aquele feliz momento em que você está “Se maquiando para balada” 😉

No resumo dessa “Ópera”, comecei a gostar de Funk, Rap e até Pagode. Passei a me divertir mais com as pessoas, e fui percebendo que todos nós temos algo a oferecer. E assim como ninguém é melhor que ninguém, músicas não foram feitas para que uma seja melhor que a outra, mas sim para ser a trilha sonora ideal para o seu momento. Para a sua cara!

E você? Tem uma visão diferente sobre como formamos nosso gosto musical ? Algo acrescentar? Fique a vontade para questionar e comentar. Importante ressaltar que essa ideia é meu ponto de vista e que nada disso é absoluto, como diz nosso amigo Raul Seixas em um dos seus mais famosos versos…

“Eu prefiro ser, essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.

Se o mestre disse, está dito!

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ExperiênciasMúsica

Beyoncé e seu novo álbum, Lemonade: feminismo, sample de Led e crítica racial

E mais uma vez, Beyoncé nos surpreendeu.

Nesse sábado (23/04) ela lançou de surpresa (mais uma vez) seu novo álbum, Lemonade. E pra completar esse trabalho lindo, ainda foi liberado em conjunto os 12 clipes referentes ao material.

Com todo esse boom, é claro que ela não podia esquecer do seu maridão. Sendo assim, vocês já devem saber que todo o conteúdo do álbum já está disponível no Tidal, o serviço de streaming do Jay Z.

No lançamento foi feito um especial de TV para a HBO, que foi responsável por exibir uma sequência dos 12 clipes que têm todo o conceito focado no empoderamento das mulheres e na crítica ao preconceito racial. Até que tivemos uma palinha de que isso poderia acontecer, por conta da apresentação de “Formation”, uma das faixas do novo álbum, no Superbowl. Onde ela, junto com o clipe, pôde se expressar sobre questões raciais.

O que foi um certo choque pra todo o mundo, já que Beyoncé nunca expôs tanto sua arte à favor desses movimentos.

Enfim, achei do caralho, assiste ai.

Além de toda relevância do movimento racial e feminista, Beyonce ainda deu enfâse a outros problemas sociais, pois as mães de Michael Brown e Travyon Martin, jovens mortos por policiais nos Estados Unidos, foram prestigiadas em um dos clipes produzidos.

O novo álbum ainda conta com participações de grandes artistas como The WeekndKendrick LamarJack White e James Blake. Ainda contendo samplers de Led Zeppelin (“When the Levee Breaks”, em “Don’t Hurt Yourself”), Isaac Hayes (“Walk On By”, originalmente composta por Burt Bacharach, usada em “6 Inch”), King Crimson (“The Court of the Crimson King”, em “Lemonade”) e Animal Collective (“My Girls”, também utilizada em “6 Inch”).

A previsão é que o álbum supere as 500 mil cópias em vendas em menos de uma semana. Do caralho né?

É sempre muito bom saber que uma artista tão importante para a música mundial, está preocupada em ajudar e apoiar todos esses movimentos que vêm ganhando força.

Veja abaixo as faixas que compõem “Lemonade”:

1. “Pray You Catch Me”
2. “Hold Up”
3. “Don’t Hurt Yourself” com Jack White
4. “Sorry”
5. “6 Inch” com The Weeknd
6. “Daddy Lessons”
7. “Love Drought”
8. “Sandcastles”
9. “Forward” com James Blake
10. “Freedom” com Kendrick Lamar
11. “All Night”
12. “Formation”

Assista ao teaser de “Lemonade”:

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ExperiênciasMúsica

Tchau, Preconceito Musical

Pois é, Rihanna roubou a cena com seu novo álbum “Anti”. Mas por incrível que pareça o que mais me chamou atenção foi o cover de Same Ol’ Mistakes do Tame Impala, que normalmente é interpretado por Kevin Parker.

Pra mim foi um susto, que gerou uma reflexão imediata sobre sermos nascidos e criados em um meio social onde somos totalmente induzidos a sermos estereotipados a todo tempo.

Por que pensei nisso? Afinal, é meio que um choque pra qualquer um ver uma interação direta entre duas tribos um tanto quanto distintas.

O que eu to falando? Tá, vamos lá. Você que é roqueiro automaticamente recebe um “manual” sobre coisas que deve ou não gostar. Concorda? Não? Então vamos do 0.

Desde que o rock é rock, ou continua sendo rock, já recebemos diversas definições sobre o mesmo. Metal, Indie, Grunge, Rap Metal, Rock Psicodélico entre outras diversas opções. E é muito claro e fácil analisar o como essas tribos mesmo todas sendo consideradas rock, ainda conseguem se desentender entre si mesmo. E mesmo todas elas tendo referências lá de traz como Jimi Hendrix, Beatles, Led Zeppelin, Black Sabbath e outros como referências, ainda criam preconceitos e grupos isolados que tenta sempre impor qual realmente melhor. E no fim das contas o melhor é o cada um considera pra si mesmo, gosto é gosto.

(Falando em “gostos”, da uma olhada no que o Henrique Rocha fala sobre em, “A música resumida ao social e cultura“)

E isso não se da só na música, somos automaticamente forçados a não gostar de coisas que nem conhecemos, seja Romero Britto, Paulo Coelho ou até mesmo o Faustão.

Esse é o ponto que quero chegar.

Falando de grupos totalmente distintos como Rihanna e Tame Impala, é incrível pra mim ver como é bacana quebrar essa barreira. Apesar de terem uma pequena fatia de um público em comum (como eu por exemplo), eu acho essencial (por mais que não tenha sido intencional) criar esse discurso. Talvez seja porque pessoas são muito preconceituosas com certos tipos de música, e meio que aprendem a não gostar sem ao menos saber o que é e como surgiu tudo aquilo.

No fim das contas eu acho que essa parceria é uma grande abertura pra possíveis conhecimentos e até mesmo diminuir uma quantia de preconceito musical. Fica dica para escutar mais coisas que não conhecemos e ai em baixo deixei as duas versões pra deixar seu dia mais feliz e quem sabe até mais construtivo.

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