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Do Big Bang à sua alma! 7 questões a serem respondidas por quem deseja viver melhor em 2019

2019 já chegou com tudo e junto com ele chegou mais uma das 365 oportunidades de mudar a si mesmo durante o ano. Porém, antes de desejarmos transformar algo em nós, precisamos entender os fatores que influenciam no que somos hoje.

Estamos tão acostumados a ser quem somos que dedicamos muito pouco tempo para o auto-questionamento e para a análise de nossos sentimentos e ações. Um erro que nos aproxima cada vez mais da triste afirmação de Gabriela:

“Eu nasci assim, vou morrer assim.”

Acreditar nessa inverdade é afastar qualquer possibilidade de controlar nossas transformações, porque elas sempre existirão, quer Gabriela queira ou não.

E para compreendê-las, é necessário reconhecer que somos muitos dentro de nós, e que tudo a nossa volta tem grande parcela no que ironicamente chamamos de identidade.

1. Você sabe o que rolou no universo até chegar a nossa espécie humana?

“Somos todos poeira de estrelas”

A famosa frase do incrível astrônomo Carl Sagan inicia nossa reflexão para nos lembrar do quanto somos poucos diante da dimensão de tudo que somos parte.

Antes mesmo de sairmos da barriga de nossas mães, o nosso ‘eu’ já foi moldado por uma condição genética que caminhou até nossos pais desde do Big Bang e que influencia na nossa forma física e biológica. Presos aos nossos problemas diários, ignoramos o fato libertador de que somos:

  • apenas 1 dentre as milhares de espécies
  • que vivem em 1 dos planetas
  • de 1 sistema solar
  • que pertence a 1 das bilhões de galáxias
  • que existem em um universo,
  • até então, sem limites.

Existe uma série incrível, chamada Cosmos, apresentada pelo físico Neil deGrasse Tyson, que explica em alguns capítulos instigantes como o Big Bang deu origem ao universo, fazendo surgir RECENTEMENTE! a nossa raça humana. Está disponível no Netflix e para começar a mudar sua vida, você precisa assistir!

2. Você está por dentro dos principais acontecimentos que moldaram a nossa nação?

Terra a vista! O grito dado pela tripulação portuguesa, há mais de 500 anos, ao avistar as terras tupiniquins está aqui, não para dizer que nossa história começa nesse momento, mas para lembrar o quanto de coisa aconteceu na terra do pau-brasil antes de chegar o ano de 2019.

Além de definirem nossa língua oficial, os portugueses, junto as culturas indígena e africana, principalmente, têm grande influencia no que entendemos como povo brasileiro hoje.

Toda a história da nossa miscigenação não deve ser ignorada na análise do nosso ‘eu’, devemos conhecê-la além dos livros da escola, porque ao construírem o país, os povos que por aqui passaram, também nos construíram. Influenciando nossos gostos, nossa gastronomia, nossa cultura, nossas festas, nossa forma de entender e aproveitar a vida.

3. Você consegue compreender o sistema político que nos governa e o seu caminho ideológico?

Concordo que pelo momento crítico do Brasil, talvez seja um dos pontos mais difíceis de ser estudado, mas é necessário, principalmente agora que entendemos que ela nos afeta tanto.

Política é um ponto de extrema importância na análise de nossa vida. Por mais anarquista que alguém deseja ser, deve aceitar o fato de que atualmente todos somos governados por um sistema que enquadra nossa liberdade dentro do duo: direitos e deveres.

E para tanto, é preciso compreender o básico, tanto para questionar quanto para comparar com outras estruturas políticas que existem pelo mundo. Para começar, é importante ler sobre como o Brasil chegou à uma república federativa e os caminhos ideológicos que regem a política mundial, que afetam tanto a economia, como a sociedade, e nem sempre se resumem a dicotomia direita / esquerda. Nesse Teste de Coordenadas Políticas  é possível descobrir através de algumas perguntas qual é o seu caminho ideológico atual.

4. Você é inteirado sobre os atuais problemas sociais e sua relação com eles?

Vivemos em uma sociedade com preconceitos historicamente enraizados que nos afastam do sonho da igualdade social e do respeito à diversidade. Ignorar ou esconder esses problemas é não considerar o fato de que carregamos conosco os privilégios e os conceitos de um passado recente ou não.

Não cabe espaço para hipocrisia aqui. O preconceito está enraizado na cultura. O racismo, o machismo, a homofobia fazem parte de mim porque eu vivo e cresci influenciado por uma sociedade que é tudo isso.

Enxergar a raiz desses e outros preconceitos, assim como nossos privilégios, é uma atitude libertadora que nos aproxima da chance de assumir a nossa própria história, ao invés de deixarmos ser dirigidos por ideias do século passado. Nesse ponto, a dica é se calar um pouco e escutar mais os lados que se encontram em vulnerabilidade social, as minorias.

5.  Você saberia explicar basicamente como seu corpo funciona e as vantagens de um estilo de vida saudável?

O homem é um elemento químico e biológico doidamente complexo. E para funcionar conta com trilhões de células que trabalham nos diversos sistemas operacionais, tais como o respiratório, digestivo, nervoso, e tantos mais. Temos um universo próprio dentro de nós.

Não precisamos entender tudo minuciosamente, porque graças a Deus há pessoas capacitadas estudando cada parte dessa máquina. Porém, dependemos desse corpo para existir e contribuir para que ele trabalhe da melhor forma possível é questão de lógica e sobrevivência.

Deseja uma vida melhor? Cuide do seu corpo. Faça check-ups. Batalhe aos poucos e a cada dia mais por uma alimentação saudável e por um estilo de vida que deixe sua mais importante casa feliz. No começo pode ser chato inserir a saúde dentro de uma rotina sedentária, mas se você deseja de fato mudar, seu corpo não pode ficar para trás. Se for te ajudar, comece por essas 10 dicas. E não deixe de assistir o documentário Food Choice, disponível na Netflix, que revela como nossas escolhas alimentares impactam em nossa saúde e na saúde do planeta.

6. De onde vem e para aonde vai? Saberia dizer qual é a procedência e qual é o destino do que você consome?

Se eu abro a torneira e a água sempre vem, não é necessário que eu saiba qual rio que abastece minha vida. Se eu vou ao mercado e sempre tem carne disponível, pouco me importa de onde ela vem. Se deixo meu lixo na rua e no outro dia magicamente ele some, não preciso saber para aonde ele vai.

Desde que começamos a sistematizar tudo que necessitamos para viver, seja nosso alimento, nosso vestuário, ou os recursos naturais, nos tornamos ignorantes aos processos que sustentam nossas vidas. Essa tamanha abstenção tem dois principais impactos: na nossa saúde e na saúde do nosso planeta.

Desenvolver uma consciência sustentável sobre o que consumimos é papel de todo cidadão. Principalmente daquele que busca em 2019 ser mais dono do seu próprio nariz. Além do documentário sugerido no ponto anterior, assista esse vídeo também.

É absurdo e incoerente que com nosso estilo de vida estejamos destruindo as condições necessárias para que possamos viver.

7. Por fim, você compreende como funciona sua mente?

“É difícil aceitar que seja apenas nossa mente o que nos impede de atingir todo nosso potencial.”

Para 90% das promessas que fazemos na virada do ano, somos nós mesmos as principais barreiras para que consigamos cumpri-las. E toda essa dificuldade tem culpa no funcionamento de nossa mente que através de gatilhos nos encaixa em um comodismo resistente a qualquer alteração.

E como tudo na vida, para transformar isso, é preciso reconhecer e compreender. Compreender como funciona essa máquina e seus atalhos que inconscientemente influenciam em nossas preferências, escolhas e ações.

A psicanalise tá aí pra isso. Na internet há diversos textos que abordam o funcionamento de nossa mente. De início, eu destaco este do PapodeHomem, que enumera 5 vieses mentais que podem estar arruinando nossas tomadas de decisões, e como melhor lidar com eles.

Já é um bom começo para um recomeço.

“O crescimento pessoal nunca é fácil. Demanda trabalho duro e dedicação. Mas não deixe que seu futuro eu sofra em nome de conveniência cognitiva.”

Feliz 2019!

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Vício e a Cracolândia: A droga não é o problema

Há uns dias eu fui bombardeado, provavelmente você também, com vídeos sobre a ”limpeza” da Cracolândia (uma intitulação popular para uma região com usuários de droga e traficantes no centro de São Paulo), impulsionada pelo prefeito João Dória.

Como de costume, junto de qualquer noticia, principalmente politica, acontece um fenômeno muito comum, os ”textões”, o maior dos divisores de opiniões da internet, que todos estamos acostumado e participamos de alguma maneira.

Em um desses textões, uma pessoa me chamou atenção. Segundo ela, só é viciado quem quer, só usa droga quem quer e as consequências são uma só. Depois eu percebi que essa ”uma pessoa” são várias formando uma espécie de paradigma. Como paradigmas estão ai para serem quebrados e atualizados, decidi fazer esse textão.

Eu achei a ação desastrosa, mas, mais importante do que eu acho, são alguns dados que envolvem o título do texto que me influenciaram para chegar nessa conclusão. Como eu acredito que conhecimento deve ser cada vez mais compartilhado, resolvi escrever resumidamente sobre estes temas, que para mim, estão diretamente ligados e tudo com fonte, é claro!


Pra você, o que é Droga? É muito comum encontrar o termo sendo usado para classificar as substâncias ilícitas, porém, numa rápida pesquisa no site do Wikipédia , ele mesmo, aquele que faz todos os nossos trabalhos de escola/faculdade, encontramos por definição:

”Droga é toda e qualquer substância, natural ou sintética que, uma vez introduzida no organismo, modifica suas funções.”

Então, tenhamos em mente que são drogas, não apenas os remédios vendidos nas drogarias e farmácias, mas também as bebidas alcoólicas e os cigarros. Além do açúcar e do café. Sabendo disso,

Qual foi a última vez que você usou a sua droga? 

Agora que ficou claro, que basicamente somos todos usuários de alguma droga, saiba que existem níveis hierárquicos para usuários, estes são:

  • experimentador
  • usuário ocasional
  • habitual
  • dependente

O nível relevante para andamento desse texto é o dependente, quando a doença do vício toma controle do usuário.

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Definição de vício, pelo Aurélio;

”Defeito grave que torna uma pessoa ou coisa para certo fins ou funções. Conduta ou costume nocivo ou condenável. Prática irresistível de mau hábito, em especial de consumo de bebida alcoólica ou DROGA.”

Foi o professor psicólogo Bruce K. Alexander, que na década de 70, com sua pesquisa, chamou atenção para que as definições de vícios fossem atualizadas (voz do avast) Porém, antes de falar da pesquisa, vamos entender o que estava acontecendo na época.

O uso de drogas pesadas no século XX ocorria de forma natural, e as consequências eram poucas conhecidas. Para quem viu a série Narcos da Netflix, pôde acompanhar com alguns detalhes a disseminação da cocaína pelo EUA, ou o filme Platoon, que aborda o uso de drogas por soldados americanos na Guerra do Vietnã. Sem contar também os revolucionários movimentos da contracultura que teve início nos anos 60, mas ainda com muito força nos 70 que popularizaram o uso do LSD.

Todos esses acontecimentos tiveram de alguma forma influência na declaração do presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon em 71, mas isso tudo é conteúdo para outro texto, aqui é foco na pesquisa.


Voltando para a pesquisa

O problema do vício nas drogas era visto apenas como uma questão farmacológica, onde o dependente era (ainda é, a que tudo indica) visto como imoral e fraco de caráter. Mas o professor Bruce Alexander levantou um questionamento sobre os experimentos feitos em cobaias (ratos e macacos) para entender o efeito das drogas. As cobaias eram postas sozinhas em uma jaula/gaiola, era servido água uma pura e outra diluída com cocaína/heroína etc… no qual os animais sempre iam na água intoxicada e bebiam até a morte.

Para o professor qualquer ser vivo nessas condições de isolamento iria preferir a morte, então, ele fez uma especie de ratolândia, com mais ratos, brinquedos e afins. Agora, tentem adivinhar qual foi resultado. Os ratos preferiam a água pura e bebiam água intoxicada esporadicamente e nenhum deles morreu ou declarou sintomas de abstinência.

Conclusão, para o professor o que causava o vício na substância a ponto de deixar alguém dependente dela tem mais a ver com ambiente em que ela vive, do que a substância em si.

Eu sei que talvez você esteja pensando, ”essa experiência feita com ratos pode não servir para os humanos”, certo? Mas, para complementar o experimento, lembra que eu falei sobre uso de drogas no Vietnã? Então, algo parecido aconteceu. Vamos fazer uma analogia entre jaula e a ratolândia.

Para os soldados americanos, o Vietnã era a sua jaula, já que eles eram postos em situações em que eram forçados a matar ou tinham chances de morrer a qualquer momento, muitos deles recorriam à heroína e maconha que nessa situação, serviam como alívio para aquela jaula. A população americana, estava preocupada achando que quando os soldados voltassem, suas ruas seriam tomadas por ”zumbis” viciados.

Porém, o oposto aconteceu, ao saírem da jaula e voltarem para seus familiares e amigos, 95% dos soldados simplesmente pararam de usar as drogas, sem tratamentos.

Quando isolamos os dependentes químicos e os tratamos feitos ”zumbis”, nós estamos fazendo com que a nossa sociedade pareça mais com uma jaula do que uma ratolândia, e colocamos os dependentes numa situação muito pior, o fazendo se sentir culpado e se trancando dentro da jaula.

Quando a nossa sociedade parece mais com uma jaula é porque algo de errado está acontecendo com a forma como nos tratamos. Precisamos nos redescobrir e desfazer esse aspecto de jaula.

Lembrando que o vício pode ser em qualquer coisa: em checar o telefone sem parar, ponografia, apostas, refrigerante e crack.

”O oposto de vício não é sobriedade, o oposto de vício é conexão” 

”quem você chama de zumbi, a mãe chama de filho”.  

Precisamos nos conectar mais com as pessoas, quantas vezes você ficou mal e só de estar perto de quem gosta te fez melhorar ? quantas vezes saiu do trabalho ou da faculdade estressado com qualquer situação e quis tomar uma cerveja? Quantas vezes você quis um sorvete, chocolate por estar triste? Um pouco mais de empatia, talvez salve vidas.

CHOSE LIFE! 

Abaixo uma animação, em inglês mas com legenda explicando a pesquisa do professor e um vídeo que o Rafinha Bastos fez com humorista Márcio Américo que já foi viciado em crak e frequentou a cracolândia.

 

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ComportamentoPolíticaReflexões

Ato pacífico no Galeão: Memória, verdade e justiça, inclusive nas Olimpíadas

Diversos textos têm sido publicados discutindo as Olimpíadas deste ano. Alguns apontam benefícios, outros, prejuízos, e mesmo assim, ficamos com a impressão de que nem tudo ainda foi dito.

Por isso, decidi dividir com vocês um texto manifesto de um ato pacífico ocorrido na última terça, 02/08, no Aeroporto Internacional do Galeão. Um ato dos “Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça”, grupo que luta contra o terrorismo de Estado lembrando as torturas, desaparecimentos e assassinatos de tantos brasileiros, que ocorreram no período da ditadura e que ainda ocorrem nos dias de hoje.

O grupo deu boas vindas às delegações e turistas que chegavam na cidade, revelando através de cartazes, um dos diversos lados calados em nosso país, e ainda mais no período olímpico.

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“O grupo Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça foi hoje ao aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro, para repudiar e denunciar o terrorismo de estado brasileiro. A violência das forças de segurança do Brasil no passado, com a ditadura civil-militar e no presente, com o genocídio dos índios, da juventude pobre, negra e marginalizada é uma das tantas questões que está sendo mascarada pela realização das Olimpíadas.

A Comissão Nacional da Verdade contabilizou 377 agentes da repressão na ditadura  (1964-1985), de generais às baixas patentes das forças armadas, que torturaram, perseguiram, sequestraram, assassinaram e desapareceram com milhares de brasileiros. Nunca foram punidos, e os que ainda estão vivos andam soltos. Exigimos o julgamento e punição dos culpados por esses crimes de lesa-humanidade. O Brasil foi condenado pela Corte Interamericana no caso Gomes-Lund e a sentença resta até hoje como letra morta.

amrildoHoje vivemos um novo golpe de estado, desta vez de caráter jurídico, parlamentar e midiático. Apoiado e financiado pelas mesmas forças civis, politicas e externas do golpe de 64. Os que dominam o grande capital: a indústria, o agronegócio, o congresso, a grande mídia, a banca internacional, fizeram chegar ao Planalto um governo golpista e ilegítimo. Cresce a perseguição aos movimentos sociais, às forças trabalhadoras, aos movimentos negro e LGBT. Cresce a repressão e assassinatos de lideranças indígenas, do campo e das favelas. Cresce o numero de ‘desaparecidos da democracia’, que desde 1985, já ultrapassou 92.000 pessoas. Cresce o número de assassinatos de jovens pobres e negros, atingindo nível semelhante ao de países em guerra!

Nós, Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça, estamos juntos com os movimentos das comunidades marginalizadas do Rio e a classe trabalhadora em luta e todos os familiares de mortos, presos e desaparecidos políticos de ontem e hoje na luta diária contra a violência de estado.  Não vamos parar, não vão nos calar! Estaremos nas ruas, nas assembleias, nas audiências públicas, nas frentes de resistência ao golpe, nas ocupações e nos tribunais!

A luta continua!”

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A justiça deve ser atemporal e se não houve punição, não houve justiça.

A manifestação, como tantas outras que ocorrem no período olímpico, contribui para que saibamos manter o foco no grito, na luta e não somente nas cores e pirotecnia.

Que fique claro, eu sou a favor do esporte, da alegria e da união que carrega o espírito olímpico. Porém, o real contexto, a montanha de “poeira” que tentam esconder é que me incomoda.

Nossa simpatia não pode ser confundida com amnésia ou estupidez.



Contatos dos “Filhos e Netos por Memória, Verdade e Justiça”:
Leo Alves Viera: +55 21 988803305
Anita Sobar: +55 21 985922648
Email: filhosnetosmvjrj@gmail.com

Créditos das fotos referentes ao Ato contra o Terrorismo de Estado: Valeria Pautasso

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CulturaPolíticaReflexões

Gabriel García Márquez, Narcos e o Realismo Mágico

Recentemente li o livro “Notícia de um sequestro” do consagrado Gabriel García Márquez, autor de ficções como “Cem Anos de Solidão” e “Memória de Minhas Putas Tristes”. Mas esta obra em especial não se trata de uma história inventada e sim de uma grande reportagem sobre os sequestros de dez pessoas influentes ocorridos na era de Pablo Escobar, o famoso chefe do cartel de narcotraficantes de Medelín. O autor coletou relatos por quase três anos dos protagonistas que participaram do terror dos sequestros.gif

Eu também assisti, antes de ler o livro, a série Narcos, de José Padilha, que tem o mesmo contexto do tráfico na Colômbia, mas é contada através de um policial americano do DEA. O roteirista de Tropa de Elite, by the way, se diz fã de García e, inclusive, já fez uma alusão ao autor no primeiro episódio da série com “há uma razão para o realismo mágico ter surgido na Colômbia”. E é nesse ponto que eu quero chegar.

O realismo mágico é o interesse em mostrar o irreal ou estranho como algo cotidiano e comum. Ele surgiu em um dos períodos mais conturbados da América Latina, entre as décadas de 60 e 70, época na qual os países latino-americanos passavam por processos ditatoriais. A frase de García entra neste contexto, pois os ataques feitos pelos narcotraficantes na Colômbia eram extraordinários. Como diz José Padilha em entrevista à Carta Capital:

Essa inserção de elementos que, teoricamente, são irreais ou mágicos numa narrativa real sempre me interessou. E, para mim, isso é algo que existe na história e na política da América Latina em geral. Tem coisas que só acontecem aqui. A trajetória do Pablo Escobar, de fato, tem essa dimensão difícil de acreditar.(…)Se você imaginar que um narcotraficante contratou um grupo de esquerda – o M19 – para invadir o Palácio da Justiça, destruir provas contra ele, sequestrar juízes… é uma coisa de maluco!

Não vamos esquecer que Pablo Escobar explodiu uma aeronave e matou as 107 pessoas que estavam a bordo.

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Bom, o conceito de realismo mágico apareceu também, recentemente, na reportagem do jornal El País do dia 28 de abril criticando a decisão do governo venezuelano de instaurar uma semana de trabalho de dois dias, segunda e terça-feira, para os funcionários públicos com o objetivo de combater a escassez de energia. Leia na íntegra: http://brasil.elpais.com/brasil/2016/04/27/opinion/1461778834_588397.html

Pergunta: para você, a alusão ao realismo mágico se insere no Brasil atualmente?

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PolíticaReflexõesSocial

WASTED BLOOD – Preconceito que desperdiça vidas

“O Brasil desperdiça mais de um caminhão cheio de sangue todo dia por puro (recheado, eu diria!) preconceito”. Assim, centenas de pessoas têm sido impactadas por esta frase estampada num caminhão cheio de bolsas de sangue (de mentira, claro), que circula pela cidade de São Paulo promovendo a campanha internacional “Wasted Blood” (“sangue desperdiçado”, em tradução livre), criada pela Agência África em parceria com a All Out, um movimento global de defesa de direitos da comunidade LGBT.

Caminhão Wasted Blood

A ação é uma crítica à proibição brasileira, estabelecida pelo Ministério da Saúde através da Portaria Nº 2.712, de que homens gays que se relacionam sexualmente com outros homens são inaptos de doar sangue pelo período de 12 meses após a última relação. Veja o que diz a portaria:

Art. 64. Considerar-se-á inapto temporário por 12 (doze) meses o candidato que tenha sido exposto a qualquer uma das situações abaixo:

 

  • I – que tenha feito sexo em troca de dinheiro ou de drogas ou seus respectivos parceiros sexuais;
  • II – que tenha feito sexo com um ou mais parceiros ocasionais ou desconhecidos ou seus respectivos parceiros sexuais;
  • III – que tenha sido vítima de violência sexual ou seus respectivos parceiros sexuais;
  • IV – homens que tiveram relações sexuais com outros homens e/ou as parceiras sexuais destes;
  • V – que tenha tido relação sexual com pessoa portadora de infecção pelo HIV, hepatite B, hepatite C ou outra infecção de transmissão sexual e sanguínea;

 

Segundo o MS, os critérios para a seleção de doadores de sangue estão baseados na proteção dos receptores. Curioso é um fato relatado no vídeo institucional da campanha, onde um homem, declaradamente gay, diz não ter sido autorizado para doar sangue para a mãe, que estava internada numa UTI, mesmo tendo uma relação estável, monogâmica, há mais de 10 anos. Outro que me chamou bastante atenção diz que “a Organização Mundial da Saúde considerava o homossexual como um grupo de risco”. Assista ao vídeo:

O mais irônico disso tudo foi ter tomado conhecimento da última campanha criada pelo Ministério da Saúde, lançada em 2015, com o título “Doar sangue é compartilhar vida”. Então, por que um filho não pode compartilhar vida com a mãe só por ser gay? Tá certo que quando tratamos da saúde, todo cuidado nunca será suficiente. Mas, o que devemos questionar, principalmente, é o fato dos sangues coletados por doadores homens gays não passarem ao menos pelos testes obrigatórios, como qualquer outro.

“Se todo sangue doado, seja de quem for, passa por uma série de testes OBRIGATÓRIOS, por que homens, gays e bissexuais são proibidos de doar?

(Álvaro Rodrigues, Vice Presidente da África)

Caminhão Wasted Blood

Com o slogan “milhões de litros de sangue desperdiçados por puro preconceito”, a campanha “busca mostrar que, ao não reconsiderar essa proibição, o Brasil impede o diálogo, reforça estereótipos e joga fora litros de sangue que poderiam salvar vidas”, segundo comentário de Leandro Ramos, diretor da All Out.

Além do caminhão, outra ação é uma fila virtual de doadores homens gays e bissexuais no site da campanha (www.wastedblood.com.br). Infelizmente, é uma fila de espera simbólica, mas que mostra em números expressivos a quantidade de pessoas interessadas em contribuir, mas impossibilitados de salvar vidas. Até o momento desta publicação já são:

Dados Wasted Blood

Enquanto vivermos numa sociedade cheia de preconceitos, milhões de vidas serão perdidas, seja por esta medida da doação de sangue, seja pelos ataques homofóbicos diários. PRECISAMOS RESPEITAR (E VALORIZAR!) A DIFERENÇA. Não me refiro apenas aos desafios enfrentados pela comunidade LGBT. Precisamos falar também dos negros e negras, das mulheres, dos pobres, dos deficientes físicos. Precisamos EXTERMINAR do nosso cotidiano este preconceito que só arruína nossa integridade, como meros seres humanos que somos. Por mais clichê que pareça, ser diferente é normal.

“O preconceito não pode existir. Principalmente quando a vida de tanta gente está em jogo”, afirmou a cantora Claudia Leitte (@claudialeitte), madrinha da campanha, em sua conta no Instagram.

Então, ao invés de continuar fortalecendo as barreiras dos preconceitos, que tal sermos os (as) valentes que valorizam a diversidade?

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Não cuspa; abrace!

Neste caótico mês de abril, duas cenas me chamaram bastante atenção e causaram um certo choque(!). A primeira foi a troca de insultos e o cuspe entre os parlamentares Jean Wyllys e Jair Bolsonaro, no plenário (veja BEM) da Câmara dos Deputados, durante a votação para aprovação do processo de impeachment. Outra foi a do ator José de Abreu, que cuspiu em um casal num restaurante de São Paulo, alegando “ter sido acusado por um casal (supostamente contra o atual governo) de defender o mandato de Dilma em troca de apoio da Lei Rouanet”, além de declarar que tal ato tenha sido em homenagem ao primeiro comentado aqui.

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Bom, não quero aqui tomar partido de nenhum dos atos mencionados, embora torno claro que não concordo com ambas atitudes. Mas quero compartilhar aqui uma reflexão: devemos mesmo responder ofensas com outras ofensas? Minha intenção aqui não é te convencer que minha opinião seja a correta, mas sim refletir sobre não combatermos a intolerância (seja qual for) usando as mesmas “armas” pelas quais somos atingidos.

Para criar uma reflexão mais diversa, me dediquei em conversar com alguns amigos com opiniões diferentes sobre os casos. Uns contra e outros a favor do cuspe.

Numa dessas conversas, recebi um link do #PdH (obrigado, jesus @henriqrochaa) sobre o conceito de “comunicação-não-violenta”, que baseia muito minha opinião. CNV, como é conhecido, é um processo de pesquisa contínua, liderada por Marshall Rosenberg, que apoia o estabelecimento de relações de parceria e cooperação (palavras tão violadas atualmente, infelizmente!), em que predomina a comunicação eficaz e com empatia. Ou seja, precisamos determinar nossas ações a base de valores comuns. Meu limite termina quando começa o limite de outrem.

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Dito isto, comecei a pensar quão MAIS FELIZ seria nosso mundo se as pessoas fossem mais tolerantes, entendessem mais as razões dos outros, e não as suas apenas, e aplicassem mais a ideia de E M P A T I A no seu dia a dia. Obviamente, os casos mencionados no início deste texto foram extremos, mas se chegamos a este nível, é sinal de que atropelamos e ignoramos tudo o que aprendemos sobre respeito, diversidade, honra e, principalmente, empatia.

Em certas situações, é preciso retroceder para que se consiga avançar.

Portanto, há uma urgente necessidade de repensarmos nossas atitudes e as maneiras como reagimos às ofensas e agressões. Não faz sentido quebrar uma barreira construindo outra. Da mesma forma, não faz sentido combater a intolerância sendo intolerantes. Paciência, autocontrole, tolerância e, essencialmente, afeto(!) são grandes urgências em nossa sociedade.

abraço

Sigo acreditando numa sociedade com menos cuspes, mais abraços.

E você?

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PolíticaReflexões

Estão lucrando com sua ideologia política e você precisa saber disso

Se você tem uma ideologia política e está lutando por ela nesse momento, posso afirmar, estando de um “lado” ou de outro, que você é contra a corrupção, mas o que talvez você não saiba é que pode estar patrocinando um outro tipo de corrupção bem na sua frente, mais precisamente nessa tela que você observa agora.

É possível se tornar “massa de manobra” ou “idiota útil” sem nem mesmo ser usado para uma finalidade política? É possível alguém com conhecimento, instrução e vivência digital se envolver no golpe do “ganhe muito dinheiro na internet sem sair de casa“? Sim. E você pode ser um deles.

Como assim?

Deixa eu explicar.

A cada dia é mais frequente ver amigos no meu Facebook compartilhando notícias falsas ou distorcidas. Antes era mais comum ver isso com pessoas menos instruídas ou com pouca “vivência digital”. Hoje vejo em minha timeline grandes profissionais, artistas, professores de todos os níveis e estudantes inteligentíssimos cometendo o mesmo deslize.

O momento político em que vivemos nos faz acreditar numa lógica muito simples e “inocente”, onde existem apenas dois lados: A vs B. Se a notícia falsa denigre A, logo foi plantada pela B. Se a notícia falsa denigre B, logo foi plantada pela A. E tanto um quanto o outro lado pode utilizá-la para benefício próprio.

Acontece que na prática existe pelo menos um outro grupo atuando e usando você para fins bastante lucrativos e talvez você não saiba.

Repare que de tempos para cá surgiram milhares de sites independentes de notícias. Sempre em busca da verdade, da isenção, da liberdade, da independência etc. Atualmente a maior parte deles está focada em “jornalismo” político.

Resolvi acessar alguns sites que passaram pela minha timeline e descobri que muitos são na verdade criados para lucrar com publicidade online ilegal.

Como funciona isso e por que é ilegal?

A maioria faz uso do Google Adwords Adsense, um serviço de publicidade da Google (dãh) que paga ao proprietário do site para exibir publicidade em suas páginas. Esse pagamento basicamente é feito por exibição (a cada mil exibições) ou por clique (a cada clique) dos anúncios. Existe porém uma prática ilegal que faz com que a cada acesso ao site, um clique seja contabilizado nos anúncios. Mesmo que você nem tenha reparado a existência deles.

Tudo isso acontece de forma invisível ao usuário comum, alguns sites abrem janelas que ficam posicionadas fora tela (e fora da sua visão) ou que abrem e fecham tão rapidamente que você nem percebe, mas seu clique já foi contabilizado.

A Google combate veementemente essa “técnica” a todo momento e é por isso que sites sérios não a utilizam, porque uma vez descoberto, o site é punido e poderá nunca mais participar do Adwords Adsense.

Já os sites pequenos, sem expressão, e muitas vezes criados com essa finalidade, podem usar essa artimanha a vontade já que, se forem descoberto, podem lançar um novo site em poucas horas.

Se é fácil assim porque não tem um monte de gente ganhando dinheiro com isso?

Primeiro porque existem mais pessoas honestas trabalhando corretamente do que gente mau caráter nesse país (amém por isso, I believe), segundo porque é fácil sim dar início ao site, mas é muito difícil conseguir audiência suficiente para lucrar de verdade.

E é nesse ponto que entra a utilização do “idiota útil” e das “massas”. Se no momento o que mais se fala no Brasil é política, e se na cabeça de cada um há uma forte divisão do bem e do mal, fica fácil para esses caras plantarem aquela notícia maravilhosa que você sempre sonhou ver estampada em todos os jornais pra você pegar e esfregar na cara de quem foi contra a sua opinião.

“Mas o site que eu entrei é bem bonito, tem um nome sério, com muitas notícias bem elaboradas e imagens lindas. Como pode ser um site falso criado em poucas horas?”

Vou mostrar como é relativamente simples e barato utilizar esse caos de informações políticas para fins ilícitos. Obviamente requer um conhecimento bem básico de, digamos, “webdesigner curioso”.

Passo 1 – Vá até o site registro.br e escolha o seu melhor domínio. Eu testei JORNALDOESTADAO.COM.BR (parece convincente?) e está disponível para registro. Custa apenas R$30 por ano.

Registro_br

Passo 2 – Encontre um serviço de hospedam para o seu domínio, isso vai custar cerca de R$10 por mês. Moleza.

Passo 3 – Compre um modelo pronto de site de notícias para instalar no seu servidor. Olha que incrível esse aqui: http://demo.tagdiv.com/newsmag/. Custa $49.

Newsmag___Just_another_WordPress_site

Passo 4 – Implemente os códigos ilegais para burlar o Google (obviamente não vou ajudar com essa parte 😉 )

Passo 5 – Agora crie notícias que chamarão a atenção do maior número de pessoas.

Parece bom, não é? Você agora pode inventar notícias de futebol (Brasil vendeu jogo para Alemanha), de religião (Papa afirma que Adão e Eva não foram reais), Celebridades (Fátima Bernardes sem roupa) ou POLÍTICA, que é o assunto do momento.

Esse texto não tem nenhum cunho político, apenas gostaria de chamar a atenção de vocês para mais um cuidado que deve ser tomado ao compartilhar conteúdos na internet. Além de se ater a fatos e questionar os argumentos do que se lê, pense também se você não está sendo diretamente utilizado para encher os bolsos dos corruptos (e não estou falando dos políticos).

 


Reflita também sobre o estado de extremismo a que estamos nos submetendo nesses tempos modernos, deixando aflorar a emoção em detrimento das razões, essa condição pode resultar em desequilíbrio emocional e nos afastar de nossas verdades. Isso vai muito além do seu Facebook ou de sua ideologia política. A dica aqui parece infantil, mas parece faltar em muitos adultos: as vezes só é preciso parar, pensar e contar até 10 antes de tomar uma decisão que poderá afetar nossa vida e a vida quem está próximo a nós.

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O que a arte tem a dizer a Donald Trump?

Jessica Walsh e Timothy Goodman são dois designers nova-iorquinos e idealizadores do 12 Kind Of Kindness, um projeto que através de 12 passos, testados por eles, indica um caminho para se tornar uma pessoa mais gentil e empática. Vale a pena dar uma olhada!

Como se já não bastasse essa contribuição para um mundo mais tolerante, os dois americanos resolveram realizar um manifesto artístico contra o político sexista, racista e intolerante, Jair Bolsonaro Donald Trump.

Estimulados por uma das diversas declarações violentas de Trump, que diz ser a favor da construção de um muro entre os EUA e o México, Jessica e Timothy, unidos à estudantes de design e voluntários, realizaram a intervenção em frente a Trump Tower, um dos arranha-céus fundados e construídos pelo empresário em Nova York.

Com grandes cartazes, os manifestantes seguravam mensagens totalmente contrárias ao discurso separatista do candidato a presidência dos EUA.

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“Construa gentileza, não muros”

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“Excluir pessoas gera discriminação, ódio e às vezes terrorismo. A história nos mostra que construir muros, tanto literal quanto metaforicamente, só causa mais problema. Nós simplesmente não podemos segregar pessoas por conta de sua religião, etnia, raça, gênero ou sexo. Ao invés de construirmos muros, vamos construir mais gentileza e amor. Vamos construir mais compreensão, mais aceitação em nosso país. Gentileza é uma qualidade inata que nós todos temos como seres humanos. Nós precisamos de um líder que seja exemplo disso. Vamos nos levantar contra essa intolerância. Não vamos deixar os muros acabarem com a gente.”

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É sempre bom ver o talento humano sendo usado para defender a diversidade. O mundo agradece. 😉

Seguimos juntos, aqui no Brasil também, buscando combater qualquer discurso opressivo com arte e gentileza <3

Confira nosso manifesto. 😉

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