Eu e todas as mulheres somos lindas do jeito que somos

Ontem me vi no espelho do elevador e fiquei surpresa. Estou evitando encarar meu próprio reflexo e qualquer coisa que reproduza a minha imagem. Isso não é a toa. Engordei e as roupas fazem o favor de me lembrar toda vez que entram.

O reflexo pelo menos consigo evitar, mas hoje, não. Não consegui fugir e tive que encarar a minha imagem, a representação de uma pessoa que, por vezes, não reconheço. Alguém que não sou eu, mas sou eu. me sinto uma estranha no ninho, uma esquisita com uma placa piscando “tô acima do peso”.

E por que isso? Por que não consigo aceitar que, sim, tive alguns deslizes acidentais e outros conscientes? Que engordar faz parte do processo chamado “viver”? Que ser gorda ou magra não faz a menor diferença?

O que acontece é que há dias em que cedo ao que os outros vão pensar de mim. Esqueço do que eu quero e de quem eu sou. Uma perda de identidade tão sufocante que abdico das minhas vontades por “estar gorda”. Isso tudo é ridículo e sinto que estou traindo todas as coisas que desconstruí até agora. Mas aí lembro que sou humana, lembro que sou de carne e osso. “Skin and bones, don’t you know? I’m just skin and bones”.

Nesse processo de aceitação — mais do que isso, de retomada do amor próprio —, um amigo meu me convidou para participar de um de seus projetos fotográficos. Conheço o Pedro desde 2005 e, a princípio, não tive medo de aceitar a sua proposta. Para mim, que costumo ficar atrás das lentes, parece desafiador servir de modelo para alguém, mas o objetivo era maior do que “ser modelo para alguém”. A ideia dele era despir os meus medos, o desconforto com o próprio corpo e, com o resultado, conseguir me enxergar de uma outra maneira.

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No dia, peguei o ônibus e fui para Botafogo encontrá-lo na hora marcada. Sabia que haveria uma lente captando cada imperfeição do meu corpo. Sabia que atrás do viewfinder haveria uma pessoa observando e sentindo tudo. Sabia que diante da câmera estaria uma pessoa cheia de complexos e histórias de frustração que envolvem a minha imagem. Mas fui, me entreguei àquilo e não tive medo de tirar a roupa. Fiz porque quis, em nenhum momento isso foi ordenado por alguém. Mesmo detestando meus seios, mesmo sabendo das celulites no quadril, eu fiquei nua e, para minha surpresa, não me senti mal com isso.

Muitos fatores contaram para que essa experiência não fosse traumática. Primeiro, porque o fotógrafo era o Pedro, conheço e confio nele, caso contrário nem estaria ali. Segundo, porque achei a ideia incrível, seria bom para ele e também para mim. o terceiro motivo, só iria descobrir quando vi o resultado final. Fotografias de uma menina tão bonita, tão singular. a menina era eu.

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Ninguém precisou me dizer, ninguém teve que me elogiar, até porque não sei lidar bem com isso, raramente acredito. Foram meus olhos que me disseram que aquela ali era eu, era eu linda, era eu nua e feliz na minha própria pele. Os defeitos se tornaram nota de rodapé perto do que aquilo representou para mim. Não era um ensaio sensual, era um balde de amor próprio para beber sempre que o reflexo do espelho me incomodasse. Nem todos os likes do mundo valeriam o que o meu coração disse, e com essa experiência, ele falou: Milena, você é linda assim, do jeito que você é.

Nunca acreditei quando meus namorados diziam isso. Sempre descartei a opinião dos amigos. Mas o Pedro conseguiu fazer com que eu visse quem eu era, com que eu visse a minha beleza naquelas fotos. Para mim, os frames não captaram apenas um corpo, um rosto, uma mulher. Nas imagens, eu vi a minha alma e isso não vende nas revistas das bancas ou nos cosméticos das farmácias. É questão de perspectiva e, sobre tudo, sensibilidade.

Hoje, me vi no espelho do elevador e não me surpreendi. Não me comparei com ninguém, não competi com um ideal inalcançável para a minha realidade.

Respirei e entendi: eu e todas as mulheres somos lindas do jeito que somos, não adianta as tentativas de nos convencerem o contrário.

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