Uma análise histórica sobre o que entendemos das "definições" de masculino e feminino nas roupas.

Passadas as semanas de moda mundo afora e revendo aqui minhas pesquisas, não pude deixar de perceber que novamente a questão da roupa agênero foi abordada, principalmente nas marcas unissex e masculinas. O que me fez pensar mais uma vez:

Será que a definição do que é roupa de homem e mulher tem mesmo que existir?

Recorrendo a história

Para tentar entender como a diferenciação surgiu e comprovar que a quebra desses parâmetros não é bem algo recente, é necessário recorrer a história da moda.

As roupas masculinas e femininas, até a Idade Média, tinham uma base (o que chamamos de modelagem) exatamente a mesma , a indumentária era basicamente túnicas que se diferenciavam muitas vezes apenas pelo comprimento ou pelos adornos que as pessoas utilizavam, isso porque até o Império Romano a função das roupas era mais para diferenciar classes e posições sociais do que enfatizar os sexos. Tanto que na Grécia Antiga a androginia era algo muito exposto, eu diria até cultuado, principalmente na arte.

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Foi na Europa Gótica que as roupas tiveram diferenças significativas entre gêneros, a partir dai que homens passaram a usar calças e calções. Chegando na Idade Média as diferenças entre sexos tornaram-se mais evidentes não só nas vestes, mas também na maneira como cada um era visto no sociedade. Mudança fortemente influenciada pela concepção religiosa da Igreja Católica em acusar a mulher como culpada pelo “pecado original”, com isso, os trajes femininos passaram a tentar esconder o corpo das mulheres.

Na Idade Moderna as roupas masculinas ficaram muito chamativas e coloridas, era comum para os homens daquela época usarem rendas e adereços atualmente “típicos” do universo feminino. Inclusive, muita gente não sabe, mas se atribui a Luis XV ter difundido o salto alto como acessório de moda, e um fato bastante curioso, é que as mulheres só tiveram acesso a esse tipo de sapato bem depois dos homens que se utilizavam dos saltos para aparentar poder e dinheiro.

Partindo mais para as décadas próximas, quando nos anos 10 Paul Poiret finalmente libertou as mulheres dos espartilhos, deu margem para que na década seguinte surgisse uma nova androgenia: o estilo La garçonne, que significa “a maneira de um menino”, muito usado pelas mulheres da época. Dai por diante com a revolução industrial e a inserção da mulher no mercado de trabalho, cada vez mais peças masculinas passaram a fazer parte do guarda roupa feminino, porque pasmem, mas até os anos 50 mulheres que usavam calça eram consideradas transgressoras dos bons costumes.

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Já nos anos 60 e 70 com a explosão do estilo hippie veio a liberdade sexual e novamente masculino e feminino voltam a ser uma linha muito tênue na moda. Com o surgimento do rock glam, a androginia volta com força, os homens abusavam de brilho, animal print, salto plataforma e muita maquiagem. Em contrapartida a esse “homem feminino”, as mulheres vinham seguindo uma vibe mais minimalista e desforme dos estilistas japoneses como Yohji Yamamoto, que já meio que trabalhavam essa questão da roupa agênero muito antes disso virar motivo pra polêmica nas redes sociais.

A moda sempre foi e é uma maneira de expressar quem somos enquanto pessoa e sociedade, e em um momento onde tanto se discute o terceiro, quarto, o quinto gênero ou simplesmente a inexistência de padrões nele, nada mais natural isso se reverter em novas maneiras de se pensar e produzir roupa.

A meu ver, o desafio de se produzir roupa agênero é devido as diferenças nos formatos de corpos, que principalmente em alguns países como no caso o Brasil são mais acentuadas, mas o fato das marcas estarem começando a se abrir para produzir uma publicidade que seja ferramenta de inclusão já é super importante.

Não é uma questão de impôr que as pessoas não tenham gênero, mas de que tenhamos a liberdade de ser e expressar quem quisermos através da nossa imagem e sem sofrer preconceito por isso.

    Mike Jagger , Patti Smith e Robert Mapplethorpe

 

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