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Quando viajantes pretos se encontram em um mar de turistas brancos

Hoje faz exatos 3 anos deste registro. E por ser preto em diáspora significar a cada dia recuperar mais de si mesmo, a cada vez que eu vejo essa foto eu sinto que ela representa ainda mais para mim.

Tirei essa foto em 2017 no Cerro de Monserrate, em Bogotá. Como sempre, estava em busca de locais aleatórios para tirar fotos mais aleatórias ainda. Achei bonito o telhado de telhas bonitas e sentei para aguardar o Raphael registrar o momento. Eis então que elas passam, me olham e entram na foto, sem convite algum, esticando a linda bandeira jamaicana.

Eu, sem entender nada, sorri e posei para foto.

Podia acabar aí. Podia significar só isso: mais uma foto no meu álbum de viagem. Se esta não fosse minha única foto com outros viajantes pretos dentre 500 desta trip.

Nós, eu e elas, éramos uns dos raros turistas negros no Monserrate e não foi a aleatoriedade que promoveu esse breve encontro, foi a proporcionalidade mesmo. Foi a felicidade de se ver enfim representado.

Porque ser preto viajante pelo mundo é isso.

É ser peça rara na maioria dos pontos turísticos. É contar e ficar feliz de encontrar a si mesmo nos locais. É também seguir sendo escaldado e ter mais cuidado que meus amigos brancos em algumas situações.

É entender que sua presença é um símbolo e que se eu estou é porque nós estamos e devemos estar cada vez mais. De preferência em telhados, no topo!

Triste é saber que esse sonho segue um pouco mais distante agora. Com toda certeza a retomada do turismo mundial pós-pandemia seguirá refletindo a desproporção causada pelo racismo, pois como bem sabemos, não estamos no mesmo barco e as maiores consequências desta crise tem cor e CEP.

Mas não recuaremos e, se houver oportunidade, #ViajePreto.

E principalmente, mochile.

Toda vivência transforma e a experiência de viajar como mochileiro promove quebras de barreiras culturais importantes para nos entendermos do mundo e deixar de represarmos as diferenças que nos tornam únicos entre bilhões.

“Únicos entre bilhões.”

Viajem para que esta reflexão torne-se cada vez mais subjetiva e menos literal para nós pretos. E se entre as andanças encontrarem essa simpáticas jamaicanas, mandem meu contato, por favor.

Em 2017 não deu tempo de pegar…

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Alluan Lucas

O autor Alluan Lucas

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