Graças a Deus, a Alá, a Buda, a Oxalá, está em alta defender a diversidade cultural

Uma semana apenas separou o fim da Jornada Mundial da Juventude, que aconteceu em Cracóvia, na Polônia, e o início da Olimpíada 2016, no Rio de Janeiro. E além do ano, a proximidade de datas nos revelou outras grandes semelhanças entre os eventos.

Assim como a JMJ, a olimpíada recebeu pessoas de todos os 5 continentes do mundo, e se já não bastasse o tradicional espírito de respeito e celebração das diferenças por trás do maior evento esportivo do mundo, a olimpíada do Rio, como todos vimos, resolveu abordar esses temas de maneira ainda mais incisiva, principalmente em sua abertura. Provando que sobre respeito a diversidade, nós, brasileiros, entendemos bastante.

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E por coincidência ou real necessidade, a valorização das diferenças culturais também foi um tema abordado em Cracóvia. Entre algumas declarações, Papa Francisco pediu que façamos “download do melhor link de todos, o do coração que vê e transmite bondade sem ficar cansado”.

Abaixo seguem outras 7 frases do papa que nos revelam um um método de encontro ao espírito olímpico, de fraternidade, de comunhão entre os povos, entre as diferenças.

1. “Vocês são capazes de sonhar?”

Como já fez em outros momentos, em uma de suas falas na jornada, o papa se inspirou em um dos discursos mais famosos sobre tolerância e igualdade: I have a dream, Eu tenho um sonho, de Martin Luther King, para dizer aos jovens do mundo todo que é preciso sonhar.

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Fugindo da interpretação clichê da frase, o pedido de Francisco, dentro do contexto que foi dito, é direcionado a necessidade de termos metas e objetivos maiores na vida, o ‘pensar grande’, acreditar sim em uma utopia.

A queda da cega procura pela estabilidade econômica e social, que ficou há algumas gerações atrás, como toda mudança, trouxe benefícios e malefícios para as novas gerações. Nos libertamos de alguns conceitos e metas impostas e já não vemos mais a necessidade de nos rotular em diversos aspectos (ainda bem!), a crescente ideia da slash generation representa um pouco isso.

Porém, com tanta flexibilidade conquistada, nos aproximamos do conceito de mundo líquido de Bauman, onde as relações são mais fluídas e menos compromissadas, e nossas ideologias, nossos sonhos se tornam transitórios e se desmancham com facilidade. E devido a isso, perdemos cada vez mais a capacidade e o interesse de ter grandes sonhos, de ter metas na vida e de assumir compromissos longos, tanto para nós mesmos, quanto para o mundo.

2. “Não vegetem no sofá da vida”

Seguindo o raciocínio, nessa segunda frase-pedido Chico crítica o comodismo e alerta sobre a necessidade de nos incomodarmos e de nos assumirmos como protagonistas da nossa própria história.

Analisando de forma literal, com os benefícios tecnológicos, realizamos muitas tarefas sem levantarmos do sofá. É possível até postar um #textão no facebook, assinar uma petição online e acreditar no “já estou fazendo minha parte”.

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É claro que com o empoderamento social, principalmente jovem, conquistado através das redes, podemos revelar e contribuir muito mais com causas e problemas que estavam ocultos à sociedade. Porém, o que não podemos achar é que o ativismo de sofá, uma ação apenas online, seja a nossa contribuição suficiente para o mundo real em que sonhamos.

Até porque, interpretando de forma mais subjetiva, ficar preso ao sofá da vida é customizar nossa felicidade, nosso “sofá-felicidade”, como classificou o papa. Na vida virtual, por exemplo, nosso feed nos mostra as coisas que curtimos e interagimos mais, tática inteligente que nos acomoda aprisiona em uma realidade só nossa, onde por vezes não há problemas sociais e não há necessidade de alguma ação transformadora. O sofá-feed cala nosso protagonismo, desestimula o senso crítico e cria uma ilusória felicidade ou uma falsa busca por ela.

Levante-se já.

3. “se envolvam” com a realidade, com “a dor” e com as “guerras”, tanto externas quanto íntimas

Deixem de lado a crescente fragilidade no relacionamento com o próximo, deixem de lado o sofá e “se envolvam”. O papa conjuga os conselhos na 3ª pessoa do plural, porque ele fala para todos, suas declarações, mais do que propostas pessoais, são propostas sociais. E nessa frase fica ainda mais claro seu desejo.

Os dois pontos citados anteriormente revelam barreiras para o envolvimento com a realidade social, com a ideia de comunidade. Estar cada vez mais em rede, não é estar em comunidade, porque citando Bauman, mais uma vez:

“A diferença entre a comunidade e a rede é que você pertence à comunidade, mas a rede pertence a você.”

A rede sempre será sua realidade customizada enquanto a comunidade não. E ir de encontro a ela, é ir de encontro a dor e as guerras que estavam indiferentes a você. Nesse momento pós-sofá, pós-comodismo, devemos nos conectar com a realidade, com o próximo, por meio da empatia.

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O poder da empatia — Brené Brown

Vale destacar também, nossas guerras íntimas, citadas pelo papa e muitas vezes ignoradas pela falta de intimidade com nós mesmos.

4. “É lindo, e me conforta o coração vê-los tão revoltosos”

A melhor frase para mim! Imagino minha mãe dizendo “Que lindo, que orgulho é te ver tão revoltado” HAHAH! Ignorando a interpretação pejorativa da palavra, é de se esperar que seja preciso uma motivação revoltosa para se virar contra barreiras tão presas a nós, que impedem nosso protagonismo, calam nossa individualidade e cegam a realidade em que vivemos.

Nesse ponto, Chico é claro:

“É estimulante escutá-los, compartilhar seus sonhos, suas questões e sua vontade de se rebelar contra todos aqueles que dizem que as coisas não podem mudar. As coisas podem mudar, não é?!”

Claro que podem!

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Mas para isso é preciso aprofundar-se na realidade. Entender o porquê das coisas estarem como estão é ponto-chave do questionamento e da mudança. Compreender o surgimento dos preconceitos, dos conflitos, desde dos pessoais até os internacionais é se assumir como um agente questionador e transformador de realidades, é ter culhão e motivos suficientes para ser um revoltado, assim como foi a figura central do cristianismo, Jesus.

5. “Um coração misericordioso se anima a sair da comodidade (…), um coração misericordioso se abre para receber ao refugiado e ao migrante”

Nesse Ano da Misericórdia, a palavra e o sentido dela estiveram muito presentes nas declarações do papa. Usada para representar o amor ilimitado de Deus, Chico a utiliza na JMJ para falar de tolerância, sendo incisivo quanto a crise dos refugiados em um país em que as autoridades se recusam a receber a cota de migrantes definida pela União Européia.

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Trazendo para próximo de nós, a misericórdia divulgada por Chico anseia que nos questionemos e questionemos a sociedade sobre o que tem impedido de amar e aceitar o próximo sem barreiras. Sobre o que tem represado a misericórdia em nosso mundo.

6. “Sejam sonhadores, que acreditam em uma nova humanidade, que rejeitam o ódio entre povos, que rejeitam ver fronteiras como barreiras”

Nessa frase ele começa a revelar um pouco de seu sonho, um sonho bastante presente em sua ações e declarações. Desde que se tornou papa e assumiu o nome de um dos santos mais humildes da religião católica, Chico se revela cada vez mais um líder sábio e acolhedor, enfrentando até mesmo algumas resistências pelo lado mais conservador do catolicismo.

Em uma declarações desse ano, feita no México, o papa parece até ter se inspirado no manifesto e na missão Caras do Mundo:

“a sabedoria ancestral que o multiculturalismo traz consigo é, de longe, um dos maiores recursos humanos”

A quebra de barreiras e a valorização da diversidade cultural são os sonhos do Projeto CdM, sonhos que defendem que a riqueza humana está totalmente conectada à sua diversidade cultural, ao seu multiculturalismo. Que mais do que tolerado, deve ser celebrado, como dito na abertura das olimpíadas:

“Estamos aqui para celebrar nossas semelhanças, mas principalmente para celebrar nossas diferenças.”

7. “A nossa resposta a este mundo em guerra tem um nome: chama-se fraternidade, chama-se irmandade, chama-se comunhão, chama-se família.”

Aqui Chico completa seu sonho, sua utopia de um mundo sem barreiras, em que todos vivem em comunhão, em paz. Talvez nós, que estamos vivos nesse momento, não vivamos essa realidade em plenitude, mas deve-se acreditar, que quando começamos a mover a realidade em direção ao nosso sonho, ele deixa de ser uma mera utopia e se torna um projeto, abandona-se o caráter pessoal e passa a ser uma meta coletiva.

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Uma meta, que para mim e o Papa, que somos católicos, chamamos de Reino dos Céus, o mais verdadeiro plano de Deus. Você pode dar outro nome, porque assim como a misericórdia sem limites, esse mundo que queremos está acima de crenças e definições verbais, como diz Clarice Lispector:

“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome”

O importante é seguirmos juntos! Revoltados contra todas as barreiras que nos impedem de enxergar que #SomosTodosOlímpicos, #SomosTodosCarasdoMundo.

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