Onde todo mundo simplesmente é.

Muita gente já me perguntou qual era o motivo que fazia de mim o único ser que não se apaixonou pelo carnaval do meu estado. Juro que eu tentava pôr na mesa todos os fatos que geravam esse pouco interesse, mas eu brigava comigo mesmo sem uma resposta plausível.

Na época nada ainda me fazia sentido, mas depois de um tempo pude compreender. O problema era que eu não entendia o que era carnaval. Onde quero chegar é que, de alguns anos para cá eu consegui perceber o real motivo que faz do carnaval, O CARNAVAL.

Tirando alguns fatos como brigas, pessoas passando mal, assalto e abuso sexual, hoje eu aconselho a todas pessoas a se JOGAREM no carnaval e eu vou explicar o porquê.

Vamos falar de ex.

Tive uma namorada por volta dos meus 18 anos. Vamos chamá-la de Joana.

Eu e Joana sempre fomos ótimos amigos, e apesar de novos, tínhamos assuntos muito variados durante nosso convívio. Falávamos sobre muitas coisas, comida, música, religião, drogas, sexualidade, homossexualidade, esporte e tudo que vinha na telha.

Joana se sentia confortável comigo para revelar desejos como fumar maconha, atração pelo mesmo sexo, fantasias sexuais e etc., resumindo, assuntos que são tabus sociais.

Qualquer pessoa que tivesse uma conversa de 5 minutos com ela sobre assuntos “proibidos” poderia perceber uma vontade reprimida, que deixava claro a necessidade de ser um “personagem socialmente aceito” acompanhado pela frase “eu não quero falar sobre isso”.

Inclusive foi uma época difícil para a gente. Tentar conhecer a essência de alguém sem que ela se conheça, é praticamente impossível.

Até que depois de um tempo nos separamos e nos aproximamos em uma época de carnaval. Eu estava decidido a me jogar na folia e tentar conhecer o tal carnaval. Bem, foi ela que me ajudou a descobri o que é O CARNAVAL.

Foi uma semana onde Joana se sentiu confortável em fazer o que tinha vontade, sem culpa ou arrependimento…

Tive um estalo na minha cabeça instantâneo e consegui notar que ela havia abandonado o “personagem socialmente aceito”estava sendo quem ela sempre quis ser.

Bem, foi o momento que minha cabeça explodiu e notei alguns fatos bem importantes.

O carnaval nos dá o poder de ser quem somos e fazer o que queremos, e melhor, sem sermos julgados por isso.

Como percebi isso? Foi bem simples.

Olhei ao meu redor e vi pessoas fantasiadas, rindo por nada, cantando, conversando com estranhos e se divertindo como nunca.

Foi quando tudo ficou em silêncio e só ouvi a mim mesmo.

Compreendi que naquele momento você podia ser quem você quiser, uma heroína, um herói, uma mulher, um homem, uma abelha, uma privada, um policial, um Mickey, um homem das neves, enfim, não importava quem você era, o que importava era que ninguém ligava para isso.

No carnaval as pessoas ligam menos para quem você é, elas querem mesmo se divertir, independente de roupa, sexo, orientação sexual, gênero, raça…

Elas ficam mais abertas, mais dispostas a fazer amizades, conhecer pessoas novas, trocar ideias e tudo flui de uma maneira linda. É o lugar onde os rótulos somem, os preconceitos desabam e até mesmo o estresse desaparece, já que todos cantam no vagão apertado do metrô ao invés de reclamar da super lotação.

Consegui descobrir que o carnaval é muito mais que folia, é muito mais que música, é muito mais que dança, é muito mais que fantasia, o carnaval é ser o que você realmente é, é fazer o que quer e ser livre sem que ninguém te julgue.

Acho que todo mundo deveria ter uma dose de carnaval, porque foi isso que ajudou a Joana a se desprender de valores sociais e ser quem ela sempre quis ser. 

E porque todo dia não pode ser carnaval?

Desde então eu só consigo amar o carnaval e posso abraça-lo todos os dias se for necessário.

Até hoje me questiono “Porque todo dia não pode ser Carnaval?”. Não pelo sentido de bebida, de dança ou de folia, mas no sentido de podermos ser quem realmente somos sem sermos julgados (pensando bem, acho que não recusaria a bebida).

Não que eu queira ir para o trabalho vestido de super-homem com uma latinha de cerveja, mas queria poder sair pela rua sem medo de ser quem eu realmente sou, sem medo de um olhar torto e ainda ter a possibilidade de fazer mais amigos.

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