Algumas vezes a melhor forma de se encontrar é se perdendo antes.

Há seis meses dessa publicação, eu dei um passo na vida que já sentia que precisava ter tomado há muito tempo: sair da casa dos pais.

Agora é hora de reavaliar os aprendizados e compartilhar com quem estuda fazer o mesmo 😉

Antes de mais nada…

Aqui cabe um esclarecimento para que não me entendam errado. Não, eu não tive uma infância traumática, sofrida ou da qual eu guarde rancores. Nada disso! No meu caso, sair da casa dos pais representava um último grito de independência que eu sentia precisar dar antes de me descobrir por inteiro… E deu certo!

Depois de mais de 23 anos vividos na pequena cidade de Nilópolis, terra de Neguinho da Beija-Flor, na Baixada Fluminense do estado do Rio de Janeiro, os ventos sopraram pra direção à qual eu já tentava há algum tempo fazê-los soprar, que era a cidade São Paulo.

Assim como grande parte dos que emigram de suas cidades para a capital econômica do Brasil, o trabalho me fez trocar a sensação térmica de quase 50º no Rio pelas tardes cinzentas e chuvosas da capital paulistana e eu não poderia estar mais grato por isso. Por isso, no clima de virada, novas etapas e resoluções de novo ano, eu decidi retribuir com alguns pequenos aprendizados que eu consegui tirar ao longo dos últimos seis meses.

1. Família faz falta.

Talvez seja a afirmativa mais óbvia que farei ao longo do texto, mas independente de brigas e rotinas, família faz realmente falta. Eu nunca fui um cara muito dependente emocionalmente da minha família e, na realidade, até me sinto um pouco culpado por essa minha “frieza” algumas vezes, mas existem momentos em que um abraço da mãe ou um berro do sobrinho sempre vão fazer falta.

Mas a saudade é um sentimento que vem em ondas. Se há dias em que você pensa em largar tudo e pegar um ônibus no meio da madrugada para chegar em casa pela manhã, há outros (e se você tiver sorte, como eu, a grande maioria deles) em que você sabe que poderia não estar vivendo aqueles momentos se não tivesse dado um passo pra longe do comodismo sob um teto de mãe.

2. Laços familiares vão além das famílias.

morticia-addams-familySe o parentesco é definido por sangue, o sentimento de família normalmente vai além disso.

Um dos meus maiores receios ao decidir me mudar para São Paulo era o possível sentimento de solidão. Eu já conhecia virtualmente algumas pessoas no trabalho, mas o medo de me limitar a contatos em um nível de “coleguismo de trabalho” era uma preocupação pessoal que eu queria contornar.

E apesar de hoje perceber que esse medo não era necessário, até porque tive bastante sorte nesse sentido mesmo no trabalho “normal”, esse medo acabou me gerando uma das experiências mais marcante nesse período: o Worldpackers.

Explicarei melhor sobre o projeto em breve, em um outro post, mas resumidamente é um projeto onde viajantes trabalham em albergues em troca de acomodação e, na maioria dos casos, alimentação.

E nos meus primeiros seis meses em São Paulo, eu acabei morando em dois hostels da cidade nesse meio tempo. Primeiro, o Okupe Hostel, no bairro dos Jardins, perto do metrô das Clínicas, onde eu fazia turnos que revezavam entre a recepção de madrugada e a noite no bar. E o Hostel Alice, um pequeno hostel com jeitinho de casa de vó no bairro da Vila Madalena, também perto do metrô, onde eu fazia turnos na recepção na madruga ou aos finais de semana durante o dia.

Os trabalhos, carga horária, etc variam entre os dois, mas uma coisa se repetiu em ambos: o clima de família.


https://www.instagram.com/p/BOBIWObh10X/?taken-by=vitordmartins

Os motivos de cada uma das pessoas dentro desses hostels variam. Alguns vieram por namorado(a)s, outros porque acharam que seria mais fácil ganhar a vida em São Paulo, outros simplesmente fugiam de suas vidas e precisavam de um tempo para pensar… Mas se os motivos não são iguais, a mentalidade das pessoas que se encontram nesses quartos coletivos é quase sempre muito similar. Você aprende que nem todos são iguais. Que nem todos precisam ser iguais. E que é deve de cada um fazer um pouquinho de esforço que seja para que tudo dê certo.

E sempre deu.

3. Pequenas vitórias ainda são vitórias.

Se pular de bungee-jumping é o tipo de momento marcante em uma viagem, quando se sai de casa, os pequenos feitos da rotina também se tornam grandes realizações.

Do primeiro macarrão com carne moída à primeira vez que você sabe em que estação fazer a baldeação do metrô sem olhar no mapa, tudo é motivo para comemoração de alguém que começa a aprender a se virar.

4. Você se sente sem uma casa, mas isso até que é bom!

Quando você sai de casa, voltar no seu antigo lar deixa de ser o mesmo que era quando você morava lá. Você deixou de ser um morador e passou a ser visita, e por mais que você ainda queira opinar até mesmo se uma parede da sala mudou no tom de bege, você sabe que não tem mais o direito moral de se meter naquilo.

tumblr_mm3f3noxmk1rcy99do1_500

Você seguiu em frente e a vida ali também seguiu sem você. A sensação de pertencimento deixa de ser relacionada à um lugar e passa a ser a um momento.

E por que isso é bom?

Porque não sentir raízes presas a algum lugar ajuda a diminuir o grau de importância que você dá às coisas, afinal, elas raramente são permanentes. Você deixa de ser dependente ao seu cep e percebe que no final das contas, você precisa apenas de si mesmo.

5. Nem sempre tudo dá certo, mas com sorte (ou precaução), se resolve.

Estar sozinho em uma cidade desconhecida também tem dos seus perigos.

Seja tentar fazer miojo no microondas dentro de uma panela de alumínio ou ir a uma boate desconhecida só com cartão, sem celular e sem saber como voltar, algumas vezes as merdas não acontecem porque não eram para acontecer.

Admito não ser o melhor exemplo de cara precavido, mas no mundo ainda há muito mais pessoas boas do que ruins, cabe sempre a atenção às situações na qual você se mete, em especial por você ser o novato na área. Ser cuidadoso e evitar situações de perigo é o básico para tudo dar (e continuar dando) certo.

E essa dica eu mesmo preciso começar a seguir.

tumblr_lktaa7sjaw1qzhvg4o1_500_by_doughboycafe-daj1yuy

6. Você aprende muito sobre si.

Estar embaixo da asa de alguém às vezes faz tudo parecer muito fácil.

Apesar de ser de uma família classe C de um município do subúrbio fluminense, a verdade é que a minha vida sempre foi de privilégios.

Para começar, nunca passei fome, sempre tive onde morar, não sofri abusos físicos nem emocionais durante toda a infância e adolescência, e nem nada do tipo. Por isso, sair de casa foi a verdadeira prova do que eu era capaz ou não fazer. Do quão autossuficiente eu realmente consigo ser.

Eu ainda tenho muito mais privilégios que boa parte da população tem. Alguns vieram de bandeja, outros eu corri atrás e assim segue-se a vida, mas o que importa disso é que a cada dia que passa em que você precisa se virar sozinho e se apoiar em si mesmo, mais você consegue se entender. O que te fere, o que te excita, o que te faz feliz…

É como começar uma jornada prazerosamente necessária, só que sem saber quanto tempo ela vai durar ou se algum dia ela tem fim. Mas ai são cenas dos próximos capítulos…

  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •  
  •