Onde foi que a Vogue errou mais uma vez?

A polêmica da semana está sendo a campanha da Vogue, “Somos Todos Paralímpicos“, lançada nas redes sociais e tendo como peça principal de divulgação os atores e embaixadores das ParaolímpiadasPaulinho VilhenaCléo Pires, fotomontados como deficientes físicos.

Como afirma em seu site, a intenção da Vogue foi de “dar maior visibilidade aos paratletas e mostrar sua relevância para o esporte nacional”. E é na própria declaração que encontramos o gap em relação a intenção e a como foi produzida a campanha. Um gap de representatividade que tem sido muito comum depois do importante crescimento do apoio de marcas à causas sociais. E além da Cléo Pires em seu snapchat, Rafinha Bastos parece também não entender a crítica por trás da boa intenção:

Sorte nossa que Rodrigo Carvalho resolveu escrever um #textão de resposta, nos lembrando mais uma vez que o empoderamento por trás da representatividade é a maneira mais eficaz de se apoiar uma causa:

textador“Rafinha, olha só… vou tentar expor o outro lado da moeda (o das pessoas que não se sentiram muito “confortáveis”) com a campanha:

Você tem razão, nada de errado nas pessoas demonstrarem apoio a causas que, a princípio, não são delas. Esse, pra mim, não foi o ponto reprovável da coisa. O que causou essa repercussão negativa toda foi a maneira escolhida pela revista pra demonstrar esse apoio.

Eu explico: tenho 31 anos de idade, sou Portador de Paralisia Cerebral e já tentei ser para-atleta, ou seja, eu conheço bem de perto a luta dessa galera porque, durante muito tempo, essa foi a minha luta também. E eu, como deficiente físico e pretenso para-atleta, teria adorado ver um para-atleta de verdade estampando a capa de uma revista de tanta relevância como a Vogue.

Primeiro porque tem um negócio irado chamado representatividade. Não tem nada mais legal do que você se enxergar no outro. Na maioria das vezes, quando um deficiente é retratado pela mídia, sempre carrega aquele ar de incapacidade e piedade por parte das pessoas. Ou então somos alvo das piadas de humor negro e temos que dar risada pra não sermos tachados de amargurados e sem senso de humor. Então, seria do caralho ver um deficiente de verdade sendo exaltado numa capa de revista, sacou? Esses caras são tipo os meus super-heróis, exatamente como o Spider-man é pro seu filho.

Aí a gente vê uma publicação como essa da Vogue e se depara com celebridades “fantasiadas” de deficientes e isso chega a soar até como uma piada de mau gosto, entende? Uma representação caricatural da nossa luta. Óbvio que causa aquela raivinha.

Acredito de verdade que a campanha teve ótimas intenções e foi endossada pelos atletas porque é praticamente uma tentativa desesperada de serem notados pela mídia, patrocinadores e sociedade em geral. Mas, aposto que se você perguntasse quem eles gostariam que protagonizasse essa campanha, a resposta seria bem diferente. Sou contra esculachar a Vogue, mas espero que um dia nós deficientes não precisemos de atores globais pra sermos prestigiados pelas pessoas.

E só pra deixar claro, não tenho nada contra os atores. Só o approach do ensaio poderia ter sido diferente. Seria bem legal ver o Vilhena simulando uma corrida junto com o atleta. Ou a Cleo Pires interagindo com a outra atleta ao longo das fotos. Mostraria interação, inclusão e, principalmente,Bom senso.

Abraços, Rafinha. Sou seu fã;”

Abraços, Rodrigo. Somos seus fãs!

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