“Hoje passei na Barra Store, comprei uma t-shirt e a make pra curtir a night ali perto do Fashion Mall. Lá tem cada drink que me deixa em slow motion.”

A sociedade brasileira tem por herança colonial o sentimento de vira-latismo em suas veias. Quando o assunto é língua, podemos ver pelo texto acima como gostamos de importar palavras norte-americanas.

Usar termos em inglês soa descolado, mais técnico e antenado para algumas pessoas, e essa mania se torna quase uma doença. A verdade é que esse uso não tem utilidade prática nenhuma, tendo em vista a riqueza de nossa língua e a total capacidade de tradução ou adaptação de palavras.

É quase ofensivo supervalorizar a língua inglesa em um país com autores geniais, referências para todo o mundo. Além disso, a questão que está colocada é uma espécie de subserviência linguística, onde algum termo ganha status rapidamente se for em inglês.

Mundo Profissional

A lógica se aplica de forma mais intensa no mundo empresarial. Conceitos amplos viram substantivos próprios quando traduzidos para outra língua. Para visualizar melhor:

“Hoje vamos ter uma chuva de ideias para definir nosso roteiro.”semgraca

“Hoje teremos O Brainstorm para definir nosso roteiro.”

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Note como a mesma frase ganha outro peso quando se utiliza o jargão americano. Existem diversas questões intrínsecas neste uso esquizofrênico de outra língua. Uma dessas questões é a forma como o mercado deseja se posicionar adotando tal postura. A diferenciação, o afastamento do público comum e a ideia de que soará mais profissional se dito em inglês devem ser combatidas.

Outros Caminhos

As mídias independentes se multiplicam a cada segundo, dando voz e potência a quem antes tinha papel passivo nos processos de construção de narrativas. Quem não enxerga esse processo está ficando obsoleto, e perdendo ótimas oportunidades de inovação. Como exemplo claro do que está em jogo, temos os coletivos dentro das comunidades, que ajudam a ressignificar o ambiente e a vida de quem está ali envolvido diretamente, provando que hoje um comunicador de um grande veículo pode ser impactado por uma notícia vinculada em um jornal comunitário.

Enquanto alguns tentam se diferenciar adotando outra língua, as classes mais pobres, que geralmente não tem acesso a esse repertório, criam narrativas particulares e recriam os meios de se comunicar. Veja esse caso, que à primeira vista parece surreal, mas que nos oferece uma perspectiva muito interessante sobre um lado mais “marginal” dos processos de comunicação: um cara que era camelô teve uma ideia de criar grupos de Whatsapp e fazer uma curadoria por assuntos nesses ambientes, cobrando pelo serviço. Para se ter ideia, o empreendedor lucra em média 15 mil reais por mês.

Portanto, busque repensar alguns aspectos de como você se comunica. Não se esqueça que tais processos são essenciais nas construções de relações, e se alguém se propõe a dialogar com o diferente deve estar disposto a não perpetuar hábitos de uma parcela restrita da população. A valorização da nossa cultura, e consequentemente a afirmação do Brasil como potência, pode ter um braço importante na língua.

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