“Nossa, tá maluco namorar geminiano, que raça!  — Ai eu sou assim mesmo, falo na cara, escorpiana típica. — Eeeeu, ter amiga canceriana? Tudo carente, to fora!”

Há algum tempo as redes sociais vem sendo tomadas por uma nova religião chamada MAPA ASTRAL. Pode parecer exagero chamar de religião, mas ao longo do texto mostrarei algumas semelhanças entre ambas as coisas.

As páginas dedicadas a falar de signos, mapas astrais, e memes desse assunto se multiplicam. O assunto já figura o cenário pop das redes, tendo conteúdo vinculado diariamente, e nesse processo todos acabam sendo afetados, direta ou indiretamente. É praticamente impossível abrir seu perfil no Facebook e não ser bombardeado por pérolas relacionadas ao tema.

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Mas por que isso ganhou tanta força ultimamente?

A linha do tempo para algum assunto virar dominante nas redes é impossível de traçar. Essa característica é própria da internet e do formato 100% colaborativo que as plataformas possuem. Contudo, podemos identificar alguns aspectos sociais que propiciam a ascensão dos mapas astrais.

O primeiro e principal destes aspectos é o ônus da Geração Y. Explico melhor: nós, dessa geração, já nascemos tendo que vencer, ser inovadores e fantásticos, estarmos estabilizados e com negócios próprios antes dos 30, termos milhões de graduações e cursos e….ufa! Não conseguimos. Porque é humanamente impossível, ou pelo menos muito difícil, alcançar esse ideal de sucesso e estilo de vida proposto e praticamente imposto para nós.

Estamos frustrados, cansados, doentes, ansiosos, cada vez mais depressivos e sedentos por espaços de alívio e transferência de culpa. Não queremos ter que carregar todo esse peso, e nessa corrida encontramos algumas possibilidades.

Alguns utilizam a religião como este espaço de fuga. Veja bem, aqui não cabe uma crítica a religião em si, nem a nenhuma vertente, é apenas uma reflexão sobre os motivos que estão levando nossos jovens a buscarem conforto espiritual. É na fé que alguns encontram seus demônios para culpabilizar, suas amarrações que justificam suas vidas não andarem, e diversas outras figuras simbólicas que externalizam nossos medos e angústias.

No fundo, só queremos ter a certeza que o problema não está em nós, mas sim em algo ou alguém.

Outro aspecto são os estilos de vida radicais. Natural dessa fase da vida ser intenso, e aplicar essa característica em suas ações. Buscamos a Yoga, e viramos escravos dela, bitolados em um processo de paz acima de qualquer coisa, onde o sofrimento é negado e você transparece equilíbrio mesmo estando completamente desestruturado internamente. Novamente, a crítica aqui não é a Yoga em si, mas a forma como algumas pessoas a utilizam em suas vidas.

Buscamos também a militância política, lotada de figuras para se odiar e externar nossos defeitos. Alguns acabam esquecendo da prática e vivem em um mundo utópico onde as teorias devem se aplicar sempre em todas as relações, sejam elas quais forem.

Outras pessoas fazem de sua opção alimentar seu elemento de externalização, onde quem come carne é alguém ruim passível de retaliação sempre que possível, no exemplo dos vegetarianos ou veganos. Venho diminuindo meu consumo de carne animal, e concordo com os preceitos do movimento, mas a crítica aqui vem a falta de ponderação que alguns praticantes possuem.

Ok, falei muito mas e os signos?

To aqui lendo tudo isso só para te criticar e te acusar de canceriano mal amado.

O mapa astral entra nas mesmas questões citadas acima. Quando todos os outros falham ou são ineficazes, ele chega para nos eximir de toda e qualquer culpa. Os signos causam identificação imediata, são de fácil aderência e álibis perfeitos para nossas falhas. Conhece a célebre frase do filósofo francês Jean-Paul Sartre (aquele que era casado com a Simone de Beauvoir)?

“O inferno são os outros”

Então, o universo do mapa astral veio para refinar esse pensamento, nos fazendo acreditar que o inferno são os outros até quando esse outro somos nós. É a máxima da externalização da culpa.

O ponto a se discutir aqui é: tudo bem acreditar/gostar de mapas astrais, apenas tente não fazer disso o fator central da sua vida. Não é saudável evitar relacionamentos amorosos porque alguém tem o ascendente X, a lua em Y e vênus em Z.

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Pessoas são mais do que isso, são seres cheios de pluralidade, ambivalências, mutabilidade e principalmente contradições. A fuga pode ser confortável mas apenas adia o encontro e o embate consigo mesmo. No fundo, sabemos bem quais são nossos erros, nossos acertos, as coisas que podemos melhorar (e não queremos) e tudo aquilo que a descrição do nosso horóscopo não dá conta de tipificar.

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