Uma experiência no lugar onde não se morre

Fiz minha pesquisa para a monografia de graduação numa pequena enseada pesqueira na Ilha Grande, Rio de Janeiro. A população local, de quase dois mil habitantes, tinha se convertido à Assembleia de Deus uns anos antes da minha ida para lá. E o lugar me trazia a estranha impressão de que a morte ali não era uma possibilidade.

Sem carros, pessoas caminhavam pelas ruas e por estreitas vielas que conduziam à praia. Não há asfalto. O chão é areia e barro. O fato de serem todos conhecidos uns dos outros trazia uma sensação de proteção e aconchego. Pessoas se chamando pelos nomes e bandos de crianças soltos pelos caminhos.

No centro da vila de pescadores, a igreja se destaca como a construção mais imponente. Os fundos das casas davam para a praia paradisíaca. A frente estava voltada para a igreja, que tinha dois autofalantes na fachada que transmitiam o que era dito dentro do templo por todo o vilarejo.

Minha pesquisa era sobre o êxtase religioso que constitui a manifestações do Espírito Santo no corpo dos crentes. Eu estranhava os gritos dos pastores que invadiam a pequena casa que aluguei na vila. E até quando eu estava no banheiro podia ouvir a pregação. Deus era mesmo onipresente ali. Eu trazia comigo uma carga de preconceitos contra as religiões pentecostais, vistas por mim, de acordo com a visão corrente, como “lavação cerebral” ou como “ópio do povo”, como diria Marx.

Fui assistir o culto

Noite. Me arrumei como minha avó se arrumaria e fui à igreja, com meu gravador e caderninho. Então eu entendi o que era o fenômeno antropológico da manifestação do Espírito de Deus. A igreja inteira urrava. As veias dos pescoços saltadas. Rostos vermelhos. Aleluias e glórias. E um som gutural estranho, que não constituía palavra alguma e que aquelas pessoas acreditavam ser a língua dos anjos.

Como pesquisadora, interessada em entender como as pessoas vivem e no que acreditam, não tive como não me emocionar. Tudo caiu sobre a minha cabeça de uma vez: crianças brincando na areia, o cheiro de pão com maresia a tarde, barcos coloridos atracando no cais, o rosto enrugado da velha parteira local… e a impossibilidade da morte.

Um calor tomou meu corpo, a pele toda se arrepiou e eu chorei copiosamente.

No dia seguinte, fascinada, entrevistando uma moça da igreja eu perguntava:
– Mas o que é que você sente quando o Espírito Santo se manifesta?
– Você sabe, ela disse. Você também sentiu. Te vi chorando no culto.
Eu argumentava que eu tinha me emocionado ao observar as pessoas. E ela respondeu:
– Você chama isso de emoção antropológica, eu chamo de manifestação do Espírito Santo.

A resposta me fez refletir que as vezes um mesmo fenômeno recebe diferentes nomes em diferentes culturas. E o meu interesse científico bem que poderia ser interpretado como transe religioso.

Isso ajuda a enxergar que não há cultura melhor que as outras. Todas tem suas violências, suas sutilezas, suas belezas. E são todas, sempre, uma questão de fé.

índio

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