E você, como vê a prostituição?

Depois de cervejas e conversas com uma amiga que está escrevendo uma tese sobre prostituição, senti a necessidade de estudar e compartilhar algumas informações sobre. Com a conversa eu pude perceber que a maioria das pessoas se sentem incomodadas com assunto, e isso me gerou um certo desconforto. Não só as prostitutas, como o próprio assunto é marginalizado, o que é muito perigoso.

Embora, essa ideia de que a prostituição é a profissão mais antiga do mundo seja muito disseminada no senso comum, não há nenhum fundamento histórico ou antropológico para confirmar tal informação. Mas o que sabemos de fato, é que a prostituição sempre esteve presente em diferentes épocas e civilizações, e nem sempre ela foi vista da forma como nossa sociedade enxerga nos dias de hoje.


Como por exemplo:

Na Grécia e em Roma. A prostituição era vista de forma parecida com uma certa admiração. Os bordéis funcionavam a vista da população, porém as prostitutas deviam se vestir de uma forma diferenciada e pagar caros impostos, com sérias punições caso não cumprissem este ‘’acordo’’.

Mas a visão muda completamente quando falamos de prostituição em Israel e no cristianismo da idade média. Era um ato completamente repudiado pelas duas culturas, chegando a punir a prostituta com morte.

Hoje, o ato de trocar sexo por dinheiro não é crime no Brasil, mas ainda tem muito a se discutir. Falar de prostituição hoje é um assunto muito complexo, com muitas vertentes.

Para melhor entendimento, conversei com uma de nossas colaboradoras Natânia Lopes, que atualmente está escrevendo uma tese sobre estigma da prostituição e da necessidade de se fazer segredo do ofício de prostituta diante disso, quatro perguntas foram separadas desse ”bate-papo”.


Qual é a principal luta das prostitutas hoje no Brasil?

“É pela regulamentação da profissão, e como estávamos conversando é uma profissão que não é ilegal, mas mesmo que não seja, ela não é reconhecida como profissão, então não goza dos direitos trabalhistas. Diante disso tem várias proibições que cercam a prostituição. Por exemplo, se uma prostituta viajar, for de um lugar ao outro com ajuda de alguém, isso pode ser entendido como tráfico de pessoas. Se alugar um determinado espaço para se prostituir, isso pode ser exploração sexual ou facilitação da prostituição. Então isso tudo engessa a atividade da prostituição e vulnerabilidade mais ainda a prostituta ao risco de violência.”

Na sua opinião, fazer segredo da profissão atrapalha na aceitação social?

“Então, essa é uma pergunta muito inteligente, preciso elogiar. Eu acredito que ajuda e atrapalha, ajuda na aceitação social porque é um recurso que as mulheres usam para poder driblar o estigma e o preconceito, então ela não vai dizer em determinados ambientes que ela é prostituta, vai manter segredo disso, é uma ferramenta que conta a favor dela. Então ajuda na aceitação. Mas atrapalha também porque dificulta na reivindicação de direitos, acaba não tendo um sujeito de direitos, alguém que diga explicitamente em todos os espaços eu sou prostituta e aí isso dificulta a reivindicação de direitos”

Quais são as representatividades políticas e sociais da prostituição?

Uma coisa que a gente chama genericamente, a gente une na verdade vários grupos sobre título de Movimento Organizado de Prostituta, mas ai existem vários núcleos divididos por estado, por categoria da prostituição, se a mulher trabalha em bordel ou na rua, tem também no mundo inteiro vários movimentos sociais organizados de prostitutas que compõe essa rede que é o movimento organizado de prostitutas, que luta pela regulamentação da atividade prostitucional que gere politicas públicas e procure movimentar politicamente o cenário nacional e internacional no sentido de respaldar e proteger mais a mulher prostituta, tem as Mulheres Guerreiras de Campinas por exemplo, que é um grupo muito atuante nesse universo, assim como a Davida. A Gabriela Leite foi uma figura central para a organização do movimento de prostitutas no Brasil e é uma espécie de heroína destes grupos, uma inspiração para estes movimentos e estas mulheres.”

(Conheça também, Gabriela Leite idealizadora da grife Daspu no qual o nome é uma brincadeira/provocação a Daslu uma loja de artigo de luxo no Brasil e fundadora da ONG Davida que defende os direitos das prostitutas.)

Quais são os maiores casos em que uma mulher decide ir para prostituição?

“Então, essa pergunta é a mais difícil de todas porque na verdade é muito difícil contornar um perfil de mulher que decida se prostituir, porque contra os estereótipos de ”a prostituta é uma mulher bonita, pobre que precisa sair da condição de precariedade então ela não tem outra opção, ele é bonita então vai se prostituir.” não, você tem meninas que não “precisam” se prostituir, meninas de classe média e classe média alta que fazem programa e aí o argumento econômico já não cola, então por que ela faz programa? Porque ela precisa? Não. Porque ela é ninfomaníaca? Uma questão de fantasia ? Então é difícil contornar um perfil porque existem mulheres de todas as classes de todas as raças  de todos os perfis individuais que podem se tonar prostitutas, como eu já tinha-lhe dito antes, a prostituição é uma possibilidade aberta para todas as mulheres.”

Como a prostituição é vista dentro do feminismo, o que você acha disso?

“A prostituição é uma questão controversa nos debates feministas, existem correntes do feminismo que demonizam a profissão, que entendem a prostituição como caricatura da dominação masculina sobre as mulheres, que tem aí seu corpo explorado pelos desejos dos homens e que se submetem a isso por falta de oportunidades dignas de vida. No polo oposto, você tem correntes dentro do feminismo que acham que a prostituição é o ápice da agência da mulher sobre o próprio corpo e glamorizam a profissão como símbolo da liberdade sexual feminina. Eu pessoalmente tendo a achar que a agência da mulher prostituta não pode ser ignorada, isto, sua escolha, sua opção por fazer uso do seu corpo como bem entende não deve ser desacreditada. Mas isso também não significa que não haja exploração da mulher e de seu corpo na atividade prostitucional, a questão é que, dentro de um sistema capitalista e patriarcal, a mulher é explorada e objetificada em qualquer profissão, as abolicionistas, que são as feministas que querem “libertar” as mulheres prostitutas parecem assim ignorar que não é só a opção por se prostituir que é determinada por condições perversas na nossa sociedade, todas as escolhas das mulheres são determinadas por essas condições, me parece que existe um pânico moral a respeito da atividade prostitucional,  a opção por se prostituir não pode então ser invalidada porque determinada pela necessidade, ou teremos que fazer o mesmo com as atendentes dos fast foods por exemplo.”


Com esse bate-papo em formato de entrevista, a gente percebe as vertentes do assunto e o quão delicado pode ser tirar conclusões precipitadas.
Separei um mapa que contém informações atuais de como está a situação da prostituição no mundo, o curioso é que, embora vivemos em país conservador, devemos reconhecer que o Brasil não é tão radical nesse assunto quanto a maioria dos outros países.

Prostitution_laws_of_the_world screen-14.34.12[29.06.2016]

Bom, para mim o importante mesmo é que assuntos como esse não caia ou fique nas margens, quebrar barreiras e também quebrar tabus.

 

 

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