Informações importantes que devem ser levadas em conta antes de escrever os famigerados textões sobre o assunto!

Há uns dias eu fui bombardeado, provavelmente você também, com vídeos sobre a ”limpeza” da Cracolândia (uma intitulação popular para uma região com usuários de droga e traficantes no centro de São Paulo), impulsionada pelo prefeito João Dória.

Como de costume, junto de qualquer noticia, principalmente politica, acontece um fenômeno muito comum, os ”textões”, o maior dos divisores de opiniões da internet, que todos estamos acostumado e participamos de alguma maneira.

Em um desses textões, uma pessoa me chamou atenção. Segundo ela, só é viciado quem quer, só usa droga quem quer e as consequências são uma só. Depois eu percebi que essa ”uma pessoa” são várias formando uma espécie de paradigma. Como paradigmas estão ai para serem quebrados e atualizados, decidi fazer esse textão.

Eu achei a ação desastrosa, mas, mais importante do que eu acho, são alguns dados que envolvem o título do texto que me influenciaram para chegar nessa conclusão. Como eu acredito que conhecimento deve ser cada vez mais compartilhado, resolvi escrever resumidamente sobre estes temas, que para mim, estão diretamente ligados e tudo com fonte, é claro!


Pra você, o que é Droga? É muito comum encontrar o termo sendo usado para classificar as substâncias ilícitas, porém, numa rápida pesquisa no site do Wikipédia , ele mesmo, aquele que faz todos os nossos trabalhos de escola/faculdade, encontramos por definição:

”Droga é toda e qualquer substância, natural ou sintética que, uma vez introduzida no organismo, modifica suas funções.”

Então, tenhamos em mente que são drogas, não apenas os remédios vendidos nas drogarias e farmácias, mas também as bebidas alcoólicas e os cigarros. Além do açúcar e do café. Sabendo disso,

Qual foi a última vez que você usou a sua droga? 

Agora que ficou claro, que basicamente somos todos usuários de alguma droga, saiba que existem níveis hierárquicos para usuários, estes são:

  • experimentador
  • usuário ocasional
  • habitual
  • dependente

O nível relevante para andamento desse texto é o dependente, quando a doença do vício toma controle do usuário.

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Definição de vício, pelo Aurélio;

”Defeito grave que torna uma pessoa ou coisa para certo fins ou funções. Conduta ou costume nocivo ou condenável. Prática irresistível de mau hábito, em especial de consumo de bebida alcoólica ou DROGA.”

Foi o professor psicólogo Bruce K. Alexander, que na década de 70, com sua pesquisa, chamou atenção para que as definições de vícios fossem atualizadas (voz do avast) Porém, antes de falar da pesquisa, vamos entender o que estava acontecendo na época.

O uso de drogas pesadas no século XX ocorria de forma natural, e as consequências eram poucas conhecidas. Para quem viu a série Narcos da Netflix, pôde acompanhar com alguns detalhes a disseminação da cocaína pelo EUA, ou o filme Platoon, que aborda o uso de drogas por soldados americanos na Guerra do Vietnã. Sem contar também os revolucionários movimentos da contracultura que teve início nos anos 60, mas ainda com muito força nos 70 que popularizaram o uso do LSD.

Todos esses acontecimentos tiveram de alguma forma influência na declaração do presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon em 71, mas isso tudo é conteúdo para outro texto, aqui é foco na pesquisa.


Voltando para a pesquisa

O problema do vício nas drogas era visto apenas como uma questão farmacológica, onde o dependente era (ainda é, a que tudo indica) visto como imoral e fraco de caráter. Mas o professor Bruce Alexander levantou um questionamento sobre os experimentos feitos em cobaias (ratos e macacos) para entender o efeito das drogas. As cobaias eram postas sozinhas em uma jaula/gaiola, era servido água uma pura e outra diluída com cocaína/heroína etc… no qual os animais sempre iam na água intoxicada e bebiam até a morte.

Para o professor qualquer ser vivo nessas condições de isolamento iria preferir a morte, então, ele fez uma especie de ratolândia, com mais ratos, brinquedos e afins. Agora, tentem adivinhar qual foi resultado. Os ratos preferiam a água pura e bebiam água intoxicada esporadicamente e nenhum deles morreu ou declarou sintomas de abstinência.

Conclusão, para o professor o que causava o vício na substância a ponto de deixar alguém dependente dela tem mais a ver com ambiente em que ela vive, do que a substância em si.

Eu sei que talvez você esteja pensando, ”essa experiência feita com ratos pode não servir para os humanos”, certo? Mas, para complementar o experimento, lembra que eu falei sobre uso de drogas no Vietnã? Então, algo parecido aconteceu. Vamos fazer uma analogia entre jaula e a ratolândia.

Para os soldados americanos, o Vietnã era a sua jaula, já que eles eram postos em situações em que eram forçados a matar ou tinham chances de morrer a qualquer momento, muitos deles recorriam à heroína e maconha que nessa situação, serviam como alívio para aquela jaula. A população americana, estava preocupada achando que quando os soldados voltassem, suas ruas seriam tomadas por ”zumbis” viciados.

Porém, o oposto aconteceu, ao saírem da jaula e voltarem para seus familiares e amigos, 95% dos soldados simplesmente pararam de usar as drogas, sem tratamentos.

Quando isolamos os dependentes químicos e os tratamos feitos ”zumbis”, nós estamos fazendo com que a nossa sociedade pareça mais com uma jaula do que uma ratolândia, e colocamos os dependentes numa situação muito pior, o fazendo se sentir culpado e se trancando dentro da jaula.

Quando a nossa sociedade parece mais com uma jaula é porque algo de errado está acontecendo com a forma como nos tratamos. Precisamos nos redescobrir e desfazer esse aspecto de jaula.

Lembrando que o vício pode ser em qualquer coisa: em checar o telefone sem parar, ponografia, apostas, refrigerante e crack.

”O oposto de vício não é sobriedade, o oposto de vício é conexão” 

”quem você chama de zumbi, a mãe chama de filho”.  

Precisamos nos conectar mais com as pessoas, quantas vezes você ficou mal e só de estar perto de quem gosta te fez melhorar ? quantas vezes saiu do trabalho ou da faculdade estressado com qualquer situação e quis tomar uma cerveja? Quantas vezes você quis um sorvete, chocolate por estar triste? Um pouco mais de empatia, talvez salve vidas.

CHOSE LIFE! 

Abaixo uma animação, em inglês mas com legenda explicando a pesquisa do professor e um vídeo que o Rafinha Bastos fez com humorista Márcio Américo que já foi viciado em crak e frequentou a cracolândia.

 

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