O cansaço que precede a festa

Depois de uma merecida recuperação na pequena espelunca de Puno, acordamos cedo o suficiente para pegar o primeiro ônibus do dia rumo ao nosso segundo país dessa aventura: a Bolívia.

Dentre os três destinos previstos no roteiro, a Bolívia era certamente o que mais nos enchia de receios. Se o Raphael morria de medo de uma intoxicação alimentar, a minha principal preocupação eram justamente os momentos de entrada e saída que a envolvem, que são as travessias das fronteiras.

Durante toda a nossa pesquisa antes da viagem, não faltaram relatos das dificuldades que poderíamos encontrar nas travessias terrestres do país. Da má vontade das pessoas que trabalham por ali até os pequenos “subornos” que te pedem pra entrar ou sair (e que aparentemente estão dentro da legalidade), tudo me deixava com os dois pés atrás enquanto nos aproximávamos de território boliviano…

E alguma coisa realmente aconteceu. Eu só não sei o que.

De maneira resumida, sim, as fronteiras bolivianas são uma curiosa bagunça. Ninguém sabe exatamente o que precisa ser feito para passar, mas algumas xérox depois, você passa e com a gente não foi diferente. Ainda no Peru, descemos do nosso ônibus direto para uma fila aleatória onde, no final dela, saímos com o carimbo de saída do Peru dado por um funcionário público peruano que sequer abriu o bico.

Quando saímos, nosso ônibus havia sumido. Ou melhor, já havia atravessado, e menos de 100 passos depois, nós também estávamos na Bolívia, em outra fila, onde um funcionário boliviano igualmente mau humorado só abriu o bico pra dizer que não podíamos entrar porque faltava sabe-se lá que documento. Um leve medo bateu por alguns segundos, até que alguém nos explicou que faltava apenas a xérox do nosso documento de saída do Peru, que por algum motivo eles precisavam ter na fronteira da Bolívia. Quer dizer… Eu acho que era isso…

Até hoje, mais de um ano desde esse dia, eu continuo com dúvidas de exatamente o que eles precisavam e se fizemos isso afinal. Sei apenas que entre câmbios e descâmbios durante as negociações de preço, tiramos umas 5 cópias de documentos diferentes, apresentamos, recebemos o carimbo de entrada, e por algum motivo eu sai com a impressão de que todas as cópias tiradas ficaram com a gente. Sinceramente? Não me perguntem, porque desisti de entender o que aconteceu ali.

Copacabana princesinha do mar

IMG_9084Famosa entre os mochileiros que saem do Peru seja por qual for o caminho (existem ônibus saindo de Cusco, Puno, Arequipa, entre outros, indo pra lá) para Bolívia, a princesinha do mar boliviana parece cheia de gringos em todos os cantos e a todo momento (ou seja, não muito diferente da nossa versão carioca).

Talvez essa seja uma impressão infiel com a realidade, mas para mim a cidade pareceu ser um pequeno punhado de ruas composto por muitos ônibus de viagem, mochileiros pra cima e pra baixo e uns restaurantes que tentam transmitir uma vibe de reggae.

E foi num desses restaurantes aparentemente roots, mas que só tinham turistas “tipicamente europeus” mexendo nos seus iPhones de última geração que nós decidimos almoçar um prato “tipicamente não típico”: pizza, que era o mais barato do cardápio.

Depois de comer e atualizar nossos status em todas as redes sociais aproveitando o Wi-Fi do local (afinal eu só tava sendo hipócrita no parágrafo anterior, mas também tava com meu iPhone, embora algumas gerações anteriores e ainda bastante prejudicado pela areia engolida em Huacachina ;), fomos até o píer e negociamos nossa ida até a Ilha do Sol, que era o principal motivo que nos fez fazer esse rápido pit-stop na pequena cidade.

“E tudo começou, há um tempo atrás, na Ilha do Sol”  

Para deixar claro, não é que a Ilha do Sol tenha sido um motivo nosso para parar ali. É meio que um motivo para todo mundo… Basicamente, é o principal ponto turístico da cidade, então não se surpreenda que todos os barcos para lá saiam cheios e a sua margem para negociação de preço seja mínima (não lembro mais por quanto fechamos, mas lembro que não conseguimos abaixar muito o preço).

No fim das contas, conseguimos um lugar na parte de cima de um dos barcos e, para nossa surpresa, Carlos, o paulista que fez o trekking no Vale Del Colca com a gente, estava lá. Fomos caminho inteiro colocando nossas histórias em dia com o vento batendo forte no rosto e a felicidade no peito mais forte ainda.

ezgif-1-2ebaea82a9Descendo do barco, seguimos caminhos diferentes. Carlos estava num outro tour, que ficaria dois dias na ilha, e percebeu que tinha descido no “lado errado” dela. Enquanto ele tentava resolver a vida dele, seguimos nosso caminho, já que estávamos com o horário apertado.

O tour da Ilha do Sol é legal, mas confesso que depois de tantas paisagens incríveis que havíamos visto nos dias anteriores, foi um pouco abaixo da expectativa. Ainda assim, valeu a pena, pois provamos um pouco da água da famosa fonte da juventude do local, e também de outras duas que a lenda diz trazerem saúde e dinheiro, coisas que são sempre bom de ter, né?!

Aproveitamos o passeio, na verdade, para fazer pequenas comprinhas com locais da ilha, em especial colares com a Chakana, a famosa cruz andina, em diferentes cores, pedras e grafias. O tour acaba em um templo Inca (foto que ilustra a capa do post), mas pequeno comparado com os que vimos no Peru, então certamente as viagens de ida e volta no barco acabaram sendo os melhores momentos.

Lição do dia: nem sempre comprar seu ônibus significa garantir seu ônibus

De volta à terra firme, voltamos para a agência onde havíamos reservado o nosso ônibus até La Paz e deixado nossas malas (mas não se engane pela palavra agência, pois a organização que a palavra insinua certamente não existia ali).

Nós havíamos comprado nosso ônibus para La Paz assim que chegamos na cidade e conseguido negociar um excelente preço. O problema: o preço foi tão bom que nem a mulher que vendeu pra gente conseguiu comprar pelo que pagamos. Dito isso, ela pediu mil desculpas, devolveu o dinheiro e basicamente falou pra gente “se virar” e encontrar outro ônibus enquanto a tarde começava a virar noite. E foi aquela correria!

Os últimos ônibus do dia saem mais ou menos no mesmo horário, entre o fim da tarde e o início da noite, e como eu disse antes, mochileiros não faltam ali, o que fez com que rapidamente a bagunça tomasse conta e não só nós, como muitos outros, começassem a entrar em um leilão caçando lugares em ônibus de viagem no meio da rua.

Foi engraçado, mas não desejo a ninguém. No final, conseguimos lugar em um ônibus velho, fedido, mas a um bom preço e parecia que estava tudo certo… Só parecia.

Uma travessia ilegal dentro da legalidade

Em determinado momento da viagem, já a noite, o motorista para e manda todos saírem do ônibus e deixarem suas malas. Não entendemos nada, mas como todos pareciam respeitar, fizemos o mesmo.

Acho que por falta de pesquisa não descobrimos antes, mas nessa travessia entre Copacabana e La Paz, existe um trecho que precisa ser feito pela água, onde todos descem dos ônibus, entram em pequenos barquinhos para a travessia (que custa o equivalente a uns 2 reais) e chegam do outro lado para encontrar o ônibus, que também faz a travessia em um outro tipo de transporte com as malas.

O que ninguém te diz é que o barco da travessia é digno de novela da Globo. Todos se enfiam em um barco cheirando a gasolina, que parece um porão, e seguem sentados no chão no escuro como se escondesse de alguém. Gente, é bizarro…

Mas deu tudo certo e no final já estávamos todos (nós e os outros passageiros do ônibus, na sua maioria Europeus) rindo e fazendo piada com a situação.

Quando em La Paz, pra que paz?

Chegando em La Paz, já por volta de meia noite, pegamos um táxi na rua e seguimos para o Loki Hostel, famoso pelas festas (e com razão, adianto), onde por não termos reserva, não conseguimos quarto coletivo e acabamos pegando um privativo triplo que saiu um pouco mais do equivalente a R$50 a noite para cada. Caro, mas valeu a pena!

O hostel é excelente, localização, ambiente, funcionários etc. Não temos muito do que reclamar, além do fato de que não tinha café da manhã incluso, mas por isso é sempre importante reservar sempre que for um hostel muito famoso antes de ir, como é o caso do Loki.

Deixamos as mochilas no quarto e subimos direto para o bar, onde rolam festas temáticas todos os dias. Nesse primeiro dia, a festa era com o tema de piratas. Comemos um pouco, bebemos bastante e eu já estava cansado, por isso desci ao quarto.

No dia seguinte, fiquei sabendo que o Alluan e o Raphael ainda foram no Hard Rock Café, que eu até cheguei a conhecer num outro dia, mas como eu me ausentei nesse, encerro esse texto deixando vocês apenas um vídeo deles descobrindo que existe funk além da fronteira.

 

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