O primeiro, intenso e complicado dia de trekking pelo Cânion del Colca

Acordamos às 4h da manhã, como jovens organizados, já havíamos deixado as mochilas arrumadas, então só foi preciso levantar e colocar as outras camadas de roupa. Eu estava com uma blusa de manga comprida, uma blusa de manga curta, um colete e um casaco bem grosso por cima. Além de uma calça e uma bota para trekking.

Depois de tudo ajeitado, pagamos a hospedagem do dia anterior e fomos para a rua. A agência American Tours tinha combinado de nos buscar as 4h30 na porta do hostel, mas como não estávamos tão confiantes disso e por ela ser apenas à 1 quadra dali, fui até ela enquanto Raphael ficou na esquina e o Vitor ficou na rua do hostel. E nos comunicamos gritando às 4h da manhã na ruas de Arequipa. Passaram várias vans brancas de outras agências até que surgiu a nossa.

A viagem tinha duração de 3 horas. Passando pela madrugada escura de Arequipa só deu para notar que era uma cidade grande, e assim como toda metrópole, contava com algumas periferias. Depois de alguns cochilos, a van sai da cidade e começa subir as montanhas. E foi ai que o bagulho começou a ficar sério.

Arequipa está a 2.300m de altitude e a estrada para se chegar em nosso primeiro destino contava com trechos que atingiam quase os 5.000m de altitude. E a cada metro de subida embalado pelas curvas da rodovia, meu estômago revirava e eu sentia o Mal da Montanha cada vez mais perto de mim. Pela janela era possível ver neve (primeira vez que eu vi tão perto) mas eu só conseguia pensar em controlar meu corpo. Até um momento em que não consegui, peguei rapidamente um saco com o Raphel e botei para fora o que estava me incomodando.

 

 

Ao chegar em nossa primeira parada, Chivay, uma pequena cidade do Vale do Colca, já havia amanhecido e eu me sentia muito melhor a 3.600m de altitude. Depois de pagarmos a taxa de entrada do vale, S./ 40 para sul-americanos, fomos tomar o café da manhã desayuno.

Haviam pães, manteiga, geleia, suco e água quente para o chá. Também nos foi oferecido folha de coca, uma erva tradicional andina e de grande ajuda para combater os más sintomas da altitude. Eu prontamente peguei uma, mastiguei e engoli. Tinha gosto de boldo e descobri logo após que basta ser mastigada como chiclete e depois cuspida. Engolir folha de coca pode causar dor de barriga. Aproveitamos e compramos água e um pacotinho com balas de coca também.

Os maiores do mundo

A próxima parada foi na estrada para ver alguns condores descansando nas montanhas. O condor é a maior ave voadora do mundo, parente do nosso urubu, é uma ave negra símbolo nacional do Peru e de outros países dos Andes. Pela sua imponência tem um papel importante na cultura e nas crenças andinas, como na cultura inca, onde é considerado um animal sagrado e compõe parte da trilogia: representada também pelo puma e a serpente.

Depois disso, passamos por alguns vilarejos e chegamos à Cruz del Condor, o mirante mais foda que eu já mirei, onde é possível ver as aves voando livremente sob a imensidão do Vale do Colca. Uma visão do caralho!

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Foto de Frode Blixt

O Valle del Colca foi formado por diversas atividades vulcânicas da região, há milhares de anos atrás, e graças a erosão causada pelo Rio Colca e outros diversos fatores, deu origem ao Canion del Colca, defendido pelos nativos, como o maior cânion em profundidade do mundo. Com 4.160, o Colca tem mais do que o dobro de profundidade do Grand Canyon dos EUA.

Quero minha casa

A vista é de se emocionar e de não conseguir registrar em fotos, porém tive pouco tempo para contemplar o mirante. Até o momento, eu estava crente crente que todo mal da altitude tinha ficado naquele saco de vômito. Errado. Depois de algumas fotos, parece que tudo voltou em poucos segundos. Uma dor de cabeça fraca que estava me incomodando, aumentou. Meu estômago começou a revirar, comecei a ficar tonto, suar frio, a sentir dor na barriga e não conseguia caminhar direito. Avisei meus amigos, mas não havia muito o que fazer. Fui até a beirada do mirante e vomitei ali, montanha abaixo do Valle del Colca.

Tive um pouco de alívio, um pouco. Uma guia de um outro grupo chegou para tentar me ajudar. Perguntou o que eu estava sentindo, disse que era devido ao soroche, o mal da montanha, e me indicou folha de coca, isotônico, voltar para a van e ficar com os pés para o alto. Uma outra pessoa apareceu me oferecendo um chá, que só de ver a cor me deu vontade de vomitar novamente.

Enquanto todos falavam e tentavam me dar dicas, eu só pensava em uma maneira de sair daquela altitude e daquele frio. Eram quase uns 100 turistas no mirante e eu não via ninguém passando mal, ninguém. Queria meu Rio de Janeiro, e se tivesse um voo direto para casa naquele momento, eu iria.

Conversei com uma guia sobre a possibilidade de voltar para Arequipa naquele momento, ela me disse que seria melhor eu seguir o tour, porque eu iria descer, diferente do caminho de volta para a cidade.

Depois de vomitar mais uma vez, fui no banheiro, sentia que tinha parte do mal da montanha querendo sair por outra parte do meu corpo. Ciente de que já estava estourando o tempo de visitação ao mirante, andei mais rápido, mas oxigênio na altitude não é fácil de encontrar.

Após terminar minha tarefa no vaso sanitário, notei que não havia papel higiênico, uma falta que seria constante durante viagem. Eu só escutava voz feminina e estrangeira, rezando por um milagre e já pensando em outras soluções, eis que surge o Carlos, São Carlos! Um paulista que estava na nossa van e foi me chamar, pois eles já estavam saindo. Pedi a ele, e ele pediu alguém, me salvando de alternativas que eu não poderia mencionar nesse relato.

De volta a van, eu me senti melhor, acreditando mais uma vez que o Mal da Montanha havia me deixado (inocente). Nesse ponto, quem optou pelo tour de 1 dia, volta em direção à Arequipa, parando em alguns outros pontos do Colca. Já quem optou por trekking, segue para o ponto de partida da aventura.

Meu Deus, chegou o trekking

Chegamos na base para iniciar o trekking e fomos apresentados ao nosso novo guia, Royal. Pudemos também comprar água e nos preparar, o que se resumiu em tirar um dos casacos. Diferente dos outros mochileiros, que nesse momento quase que trocaram de roupa, passaram produtos na pele, tiraram o chapéu da mochila, entre outros atos que nos fizeram sentir despreparados para o que estávamos nos metendo.

Eu tomei um chá de coca, por precaução, comi uma banana e comprei um cajado de madeira para me ajudar na caminhada. Além de fazer uma oferta à Pacha Mama, a Mãe Terra, uma das deusas da mitologia inca e ainda bastante presente no que restou da cultura andina. A oferenda, que consiste em empilhar algumas pedras e pedir proteção, estão espalhadas por todo Peru.

A primeira parte do trekking foi em um terreno plano em que andamos em direção a boca do cânion. Chegando a borda, tivemos mais uma vista surreal e iniciamos a descida.

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Lá embaixo, nosso destino final do dia, o vilarejo onde dormiríamos. Foto de Frode Blixt.

A manhã do primeiro dia de tour consiste em chegar até o ponto mais baixo, onde atravessamos o Rio Colca e almoçamos em um dos vilarejos do cânion. Uma descida de quase 4h em que o meu cajado foi essencial. Apesar de ‘para descer todo santo ajuda’, depois de algum tempo o corpo começar a reclamar do trabalho de ficar se travando e freando para não cair precipício abaixo.

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No nosso grupo, além de eu, Raphael e Vitor, estavam 2 noruegueses e o paulista Carlos, que me salvou. Juntos ao nosso guia, descemos em um ritmo constante, parando para algumas fotos. Com o esforço físico e o sol cada vez mais em cima, o frio ia se afastando, graças a Deus!

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Foto de Frode Blixt, nosso amigo norueguês

Depois de algumas horas, movidos a água e bala de coca, chegamos ao fundo do cânion, às margens do Rio Colca. Descansamos um pouco sentados no início da ponte e depois a atravessamos. Do outro lado nos esperava uma subida bem íngreme de uns 10 minutos que nos levaria ao vilarejo em que iriamos almoçar.

Raphael e o resto do grupo subiam bem. Vitor cansava um pouco rápido, precisando parar durante a subida para recuperar o fôlego. Meu corpo estava tranquilo até então, mas creio que devido ao esforço da subida e o oxigênio que não vinha, voltei a passar mal, voltou o enjoo e a dor de cabeça. E ao terminar a curta subida, comemorei vomitando mais uma vez.

A hora do (f)rango

Melhorei um pouco, o suficiente para chegar ao ponto de almoço. Já tinham alguns outros grupos ali também e logo depois foram chegando mais outros. Me sentia em um exame chunin em que meu guia era o sensei da minha equipe.

No almoço nos foi servido um caseiro prato de entrada (sopa) e o prato principal (arroz com pollo, como eles chamam o frango). Eu tentei comer alguma coisa, beber uma inka cola, mas só adiantou para eu ficar ainda mais enjoado e vomitar novamente, dessa vez na sacada que dava pro mato do humilde restaurante.

Voltando a passar mal, pensei até em ficar no vilarejo descansando enquanto meu grupo seguia em frente. Não estava confiante de aguentar mais algumas horas de trekking até o ponto em que iríamos dormir.

Pensando em dormir, acho que cochilei na cadeira durante alguns poucos minutos. Um cochilo divino, que ao acordar, só me incomodava uma dor de cabeça ainda. Tomei mais um chá de coca e motivado pelos meus amigos, e por Royal, nosso guia que se mostrou a todo momento preocupado comigo, levantei e segui em frente mais uma vez.

Mais trekking

O início foi tranquilo, o caminho era plano, e entre um biscoito salgado e água, eu ia melhorando. Após algum tempo chegou a parte da subida, mas graças a Deus e a Pacha Mama não passei mal. Vitor precisou parar em alguns momentos para encontrar oxigênio enquanto o resto do grupo subia em um ritmo constante.

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Foto de Frode Blixt

No fim da subida, tivemos uma parada em um quiosque de nativos para comprar alguns snacks e água. Depois seguimos em caminho plano, passando por alguns vilarejos, e logo após uma descida de volta ao Rio Colca e ao fundo do cânion.

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Enfim, o oásis!

Depois de 3 horas, chegamos com o sol quase indo embora no oásis, um grupo de casas que ficam ao fundo do cânion e hospedam os turistas loucos que inventam de fazer isso esse tour.

O ponto de chegada do 1° dia. #MochilãoCdM

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Nosso guia nos acomodou em um quarto junto com os dois amigos noruegueses e quase choramos de emoção ao ver que tínhamos chegado ao destino final daquele dia. Tomamos um banho de água gelada num protótipo de chuveiro sem luz e aguardamos o jantar no quase bar/restaurante, onde podemos conhecer mais o grupo que estava viajando com a gente. Conversamos sobre nossa vidas e embalados por algumas cervejas Vitor e Raphael talkeavam de projetos até a politica brasileira com os noruegueses e o Carlos.

Eu só escutava, admirando as fotos do dia no meu celular e rezando para conseguir sair daquele cânion no outro dia de manhã. Por fim, jantamos uma sopa e mais um prato de arroz e pollo (frango) e fomos nos deitar.

Não sem antes o Vitor barganhar e agendar a mula dele por S./50 para a subida do dia seguinte. Nosso guia nos havia prometido um trekking mais curto para sair do cânion, porém alertou que seria uma subida íngreme de mais de 2 horas, começando às 4h da manhã. Vitor já estava bem cansado e optou por uma outra opção segura, segundo nosso guia, subir o cânion montado em uma mula.

Eu, confiante de que acordaria 100%, dispensei a mula e subiria a pé com o Raphael e meu grupo. E rezando a Deus e a Pacha Mama, iluminado por um dos céus mais estrelados que eu já vi na vida, fui dormir, no fundo de um cânion do outro lado da América do Sul.

 


Gastos do dia:

Tour de 2 dias: Vale do Colca – S./110 (transporte, refeições e hospedagem inclusa)
Taxa de entrada no vale – S./40 (para sul-americanos)
Gastos com água – S./13
Gastos extras (banana, chás, cajado) – S./5

Gasto médio total: S./168 (por mochileiro)

Cotação: R$ 1 = S./0,84

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