Nunca iria imaginar que um trekking de 3h pode ser mais exaustante que um de 8h, sorte mesmo é quem tem uma Mula

Era 4 da manhã e o despertador toca. Esse sou eu, o cara que sempre acorda a galera, o senhor do despertador, o pontual, a pessoa que sempre segura a responsa… Vocês me devem “essas” Alluan e Vitor. Estava um frio do cão e era impossível enxergar qualquer coisa aquela hora, afinal estávamos no meio de um Oasis completamente sem luz. Peguei meu iPhone (que serviu de lanterna durante o dia) e sai do quarto para ver como as coisas estavam, enquanto todos dormiam.

Como me sinto todas as manhãs.

A saída da porta do nosso quarto dava direto num pátio a céu aberto, e lá estava eu conferindo a madrugada. Aquele momento não sabia que teria uma das visões mais fodas da viagem, mas simplesmente deu vontade de apagar a luz do iPhone por um instante naquele lugar completamente escuro. Em seguida pude ver uma forte iluminação vindo do alto e quando olhei pra cima, PQP… Eu vi o céu mais bonito da minha vida, é de arrepiar só de lembrar. Ele era completamente preenchido, via nebulosas, planetas, muitas, mas muitas estrelas e diversas coisas que não fazia a mínima ideia do que poderiam ser.

Minha primeira reação foi acordar o Alluan, já que ele é fissurado pelo céu. Fim das contas, ficamos igual dois idiotas parados olhando pro céu.

Depois de alguns minutos era possível ver algumas luzes em nossa volta, percebemos que os outros hóspedes estavam acordando e se preparando pra mais um dia de trekking. Resolvemos entrar no quarto e foi o momento onde tive que acordar todos. Chamei nossos novos amigos noruegueses Frode Blixt e Christopher Shah, nos preparamos e saímos. O Carlos (nosso amigo brasileiro que também é do nosso tour) estava em outro quarto, logo ia nos encontrar na saída. Vitor ia mais tarde por conta de ter pago a mula, por isso apenas avisamos a ele e partimos. Ele disse que iria nos encontrar no meio do caminho, porque era provável que ele passaria por nós cavalgando.

Hora do Fucking Trekking

Tudo preparado, partiu. Encontramos nosso guia no pátio do oásis e ele disse que havia alguns cajados (que são muito úteis) por ali . Fiquei caçando alguns e no fim consegui pra todos nós. Seguimos para a porta de saída para encontrar Carlos, ele atrasou um pouco, mas logo surgiu, e lá fomos nós.

Estava muito escuro, mas o iPhone dava conta pra mim e pro Alluan enxergarmos bem. Enquanto isso a maioria da galera tinha comprado uma lanterna com um suporte na cabeça. Era bem útil também, mas de qualquer forma meu método funcionou.

Fomos subindo no escuro com a lanterna do iPhone enquanto o dia clareava. O frio era muito, mas assim que a caminhada começou já iniciei a retirada de todos meus casacos por conta do esforço que me fazia suar demais. Inclusive morri de medo de ficar doente depois.

As subidas eram bem ingrimes e realmente cansativas, a verdade é que o guia acertou quando falou que a volta de 3h é bem mais difícil que a ida de 8h. Parávamos a cada 20 minutos, aproveitando o fato de estarmos cansados por conta da altitude e do esforço para admirarmos a vista também. Era lindo, as luzes do sol iam entrando aos poucos entre as montanhas, se fundiam com as neblinas e davam um efeito sensacional. Sem contar que corríamos a todo instante das sombras, estávamos mesmo desesperados para sermos aquecidos pelo sol.

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Frode Blixt

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Foi uma das 3h mais longas da minha vida. Eu realmente achei que não iria conseguir subir aquilo tudo. Sem contar o fato de não termos tomado café da manhã, não termos mantimentos e ainda por cima a água era pouca. Nunca valorizei tanto um biscoito e uma garrafa d’água em minha vida. Não víamos a hora de chegar no topo e poder pelo menos comprar um biscoitinho.

E o topo era como uma miragem constante, muito bizarro. Era doloroso, porque conseguíamos ver exatamente o ponto final da subida, mas a cada vez que subíamos apareciam mais subidas. A gente sempre decepcionava com falsas conclusões. Enfim, bem frustante, pelo menos o sol já estava nos aquecendo.

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Eu e Alluan com o Carlos, os noruegueses e nosso guia peruano, Royal.

Por cerca de 2h de caminhada começaram a aparecer as mulas. Elas surgem em grupos e geralmente temos que abrir espaços na trilha estreita pra passarem. Pelo visto realmente são bem seguras, rápidas e nada cansativas. E o melhor momento foi quando o Vitor apareceu, foram um dos últimos grupos, mas com a maior quantidade de pessoas. Enfim, até ele andando na mula deu um puta de um vídeo por conta da vista.

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Quando Vitor passou faltavam cerca de 40m para chegarmos ao topo. E depois de mais dores e muito esforço, conseguimos. Chegar no topo foi uma realização e tanto. Foi superar um limite meu que nem sabia que existia. E o mais engraçado é que durante todo o trajeto eu e Alluan nos apoiamos o tempo inteiro, o apoio um do outro foi essencial pra chegarmos. Obrigado amigo.

No topo tinha uma venda com alguns snacks e água. Comprei logo um chocolate pra repor as energias, mas me pergunto até hoje se o chocolate realmente me ajuda me dando energia ou se eu fico apenas feliz comendo ele, de qualquer forma não importa isso agora, o chocolate era sempre um incentivo pra continuar. Compramos água e banana também, só pra ser saudável.

Depois de comer e descansar um pouco, conhecemos uns brasileiros e reencontramos alguns que já tínhamos conhecido (na viagem esbarramos o tempo inteiro por gente que conhecemos, mesmo que não seja brasileiro, mas por conta de roteiros semelhantes). Eu gostava de encontrar brasileiros as vezes, eles sempre me fazem me sentir em casa, ainda mais porque eu sinto maior saudades de falar português. Depois rolou até uma foto grupal da galera.

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Todo mundo cansado, mas bem feliz. Só que a caminhada não terminou por ai, ainda tinha muita coisa pela frente, mas pelo menos agora era plano né?

De cima da montanha não tem descanso, mas muito verde

E assim continuamos nosso caminho rumo ao término do trekking e também do tão esperado café da manhã.

Era um caminho muito mais tranquilo e a beleza continuava. Entrávamos em meio de umas plantações e riachos. Era um lugar muito bonito e calmo, o chão era de terra e não era subida. Um local cercado por fazendas peruanas, repleto de agricultura, com as tradicionais terrazas andinas, que ali no Colca, datam de um período pré-inca. O som do riacho, dos animais e o céu azul completavam a paisagem.

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Frode Blixt

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Frode Blixt

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Frode Blixt

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Frode Blixt

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Frode Blixt

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Uma foto publicada por Raphael Bueno (@raphabbj) em

Chegando próximo do final do nosso trajeto as coisas já ficavam um pouco mais urbanas, porém o aspecto de cidade de interior ainda era muito forte nos traços. Sem contar que o chão ainda era de terra, foi como uma transição suave que nos avisa que estamos próximos ao nosso café da manhã.

IMG_8055IMG_8060E realmente dessa vez estava correto. Depois de uns 20 minutos de caminhada chegamos na praça do vilarejo Cabanaconde. Um pouco mortos de cansaço e também de fome, seguimos para o café que era num restaurante do lado da praça.

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Frode Blixt

Ficamos cerca de 1h por lá. Tomamos café da manhã com pães, ovos, chá, café e bananas. Logo depois voltamos pra praça e nos preparamos para pegar a van e partir para as próximas aventuras do dia.

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Frode Blixt

O mochileiro cansou.

Uma foto publicada por Raphael Bueno (@raphabbj) em

Próxima parada: Achoma, Mirante e Águas Termais

E pra você que achava que íamos descansar depois de tudo isso, se enganou muito amiguinho. Pelo menos o período da van entre os locais que passamos era um bom local para alguns cochilos quebrados.

Nossa primeira parada foi em um mirante onde tínhamos uma ótima visão do Colca e de suas terrazas e também umas boas lembranças pra comprar. Não cheguei a gastar nada lá, mas acabei tirando uma das minhas fotos preferidas da viagem (Obs: o mershan não é proposital).

Agora no Peru tem elefante.

Uma foto publicada por Raphael Bueno (@raphabbj) em

Nossa próxima parada foi em Achoma, um vilarejo bem pequeno do Valle del Colca que vive principalmente da venda de artesanatos para os turistas. Para falar a verdade eu só vi isso, lojinhas de lembranças, lugares pra comer e sorvete, aliás depois de tanto esforço o chocolate não foi o suficiente para repor minhas energias, logo, eu me presentei com um sorvetinho.

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A próxima parada foi nas Águas Termais, em que a entrada custava S./15. Era uma das experiências que queríamos muito ter, porém fomos aconselhados que haviam outras melhores do que essa durante a viagem. Então acabamos deixando pra próxima.

Mas como íamos sair direto do tour e seguir para Cusco, pagamos S./5 por uma ducha. Afinal, depois de tudo que passamos acabamos aprendendo a dar o real valor à uma ducha quente. No fim das contas valeu muito, mas muito a pena. Nunca fiquei tão feliz com um banho.

Fizemos umas fotos do local que é sensacional e partimos para o almoço.

E para premiar todo o esforço, no 2° dia é possível relaxar os músculos nas águas termais por S./ 15. #MochilãoCdM

Uma foto publicada por Caras do Mundo (@carasdomundo) em

 

O mirante que fomos, já retornando à Arequipa, foi um dos picos mais alto das montanhas que cercavam o vale. Fazia muito frio e ventava muito devido a altura em que estávamos, que nos permitiu também observar alguns gigantes vulcões, entre eles o Volcán Misti e o Volcán Chachani.

Vimos também algumas lhamas ao redor. Eu não aguentei ficar muito tempo fora da van, por causa do combo de vento+frio. Eu corria, tirava fotos e voltava o mais rápido possível em busca de um lugar quente dentro do carro.

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Depois de todo esse tour, mesmo cansados, chegou o momento onde voltamos para Arequipa e nos preparamos para a próxima viagem de busão.

De volta para Arequipa, seguindo para Cusco

Chegamos em Arequipa no fim da tarde, quase noite. Nos despedimos de nossos amigos que conhecemos e alguns que até encontraremos em outros caminhos da viagem.

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Estávamos bem cansados (já disse isso 100 vezes) e precisávamos reorganizar nossas malas, então fomos direto para o hostel em que estávamos hospedados. Pedimos um espaço para nos arrumar lá dentro, na sala mesmo. Só queríamos atualizar nossas redes, avisar aos nossas pais o que havia acontecido (afinal já estávamos um bom tempo sem dar sinal de vida) e por fim, seguir viagem.

Antes da rodoviária, ainda tivemos fôlego para passar pelo Mercado Municipal de Arequipa, que conhecemos por indicação do Carlos, um dos amigos que fizemos no trekking. Era um lugar bem popular, com barracas simples que vendiam desde carne de açougue, até chapéu peruano. O único problema é que já era tarde e não conseguimos pegar muitas barracas abertas. Logo, pegamos um táxi em direção a rodoviária de Arequipa por S./8, e compramos nossa passagem para seguir para Cusco.

A partir dai conseguimos descansar, ou não né?

O que aconteceu é que pra mim foi umas das viagens mais difíceis, já que a temperatura na estrada pra Cusco cai de uma forma sem igual, principalmente a noite, e eu não estava agasalhado o suficiente. Não tínhamos wi-fi e nada para nos distrair. Minha viagem naquele ônibus não foi só muito frio frio pra caralho, como também muito longa.

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