Um dia de pechinchas e furadas na grande Cusco

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Após uma noite de barrigas cheias e muita preguiça, acordamos cedo na tentativa de compensar o que deixamos de explorar no dia anterior em razão do cansaço. Mas antes de mais nada, fizemos nosso revezamento de banhos e tomamos o café da manhã, já incluso na diária do hostel. Aliás, preciso ser justo e falar um pouco melhor sobre o Kokopelli, local onde nos hospedamos na capital peruana do turismo.

Assim como os principais hostels da região, o Kokopelli é construído em um casarão histórico, mas quem vê a sua arquitetura extremamente tradicional não desconfia do quão confortável ele consegue ser. Pelos S./42 da diária que pagamos por uma cama estilo pod (que eu expliquei o conceito um pouco melhor relato anterior), está incluso ainda um café da manhã honesto, com pães, geleias e margarina, leite e suco à vontade. Há algumas restrições chatas, como a limitação de uma fruta por hóspede, que tem que dar o nome para validação a lista para que um funcionário dê a fruta, mas em compensação, nos melhores dias, há ainda opções de pudim e iogurte grego com flocos de arroz (maravilho, diga-se de passagem!) sem custo adicional. Mas ainda assim, a limitação de frutas soa uma mesquinharia um pouco exagerada.

É dia de pechinchar, bebê!

Com cafés da manhãs e banhos tomados, fomos para a rua pesquisar preços de tours. Não vou me estender muito nessa pesquisa porque, basicamente, agências de tours são o principal tipo de comércio em Cusco, com várias lojinhas nas mesmas ruas, oferecendo os mesmos roteiros e serviços, restando ao viajante, na base da lábia e pechincho, negociar as melhores oportunidades e, na base do feeling, fechar com aquele que transmitir maior confiança naquilo que oferece.

Nesse sentido, posso dizer que tivemos sorte com todas as agências que fechamos, mas ao mesmo tempo, vimos pessoas tendo problemas com elas e preferimos não recomendar, pois por economia, nem mesmo nós fechamos com as mais recomendadas. Em todo caso, para Inca Jungle Trail, todos (no albergue, na internet, nas conversas de bar, etc) recomendam a Lorenzo Expedition por ter sido a criadora do roteiro e especializada nesse tipo de trilha. Não fechamos com eles pelo preço, naturalmente um pouco mais caro, mas se você chegou aqui atrás de recomendação, essa é a melhor que lhes posso oferecer 😉

Border-line-of-alcoholismVoltando ao relato, apesar da pesquisa ter resultado algumas boas ofertas (sendo a melhor delas de uma simpática senhorinha que lavava a rua na porta da agência enquanto passávamos, mas explicou tudo com tanta propriedade e “honestidade” que acabamos decidimos ser “a escolhida”), decidimos não fechar nada nesse primeiro momento, pois almoçaríamos e voltaríamos mais tarde.

Vale dizer que nesse momento fomos abordados por um ambulante na rua vendendo casacos de “lã de alpaca” por $250 (dólares), com quem após muita negociação, conseguimos abaixar até comprar pelo preço de R$50 (reais).

Obs.: Mais tarde descobrimos que fomos parcialmente enrolados, pois não se tratava de lã de alpaca (acho até que fiquei mais feliz ao saber disso já que, pessoalmente, isso é mais motivo para não comprar) e sim sintética, mas mesmo assim, comparamos o preço com similares em lojas e em nenhum lugar encontramos por menos de S./100, então ponto para nós 😉

E foi aí que tudo mudou…

Enquanto rodávamos várias agências, conhecemos um brasileiro que trabalhava em uma delas. Paulista, ele nos contou que morava no Peru há alguns anos, após casar-se com uma peruana, e enquanto falávamos de muitos assuntos (dentre eles a história da lã alpaca que comentei acima, ele que nos contou não ser de real alpaca porque a real é fria por fora e quente por dentro, enquanto a nossa não era fria por fora), ele nos contou sobre as ruínas de Sacsayhuaman, um complexo de ruínas da região que poderíamos visitar a pé ou de táxi por cerca de S./10.

Pão-duros que somos, fomos a pé, e após cerca de meia hora andando com muitas ladeiras subindo (trauma!!!), chegamos na porta do Parque Nacional, onde precisaríamos pagar S./130 para visitação no complexo :O

Fomos pegos no susto pela informação. Como já deve ter ficado claro, viajávamos em um budget limitado, então esse custo surpresa de cerca de R$150 (convertendo para reais) não era algo que eu estava disposto a pagar. Raphael queria. Alluan estava na dúvida. E naquele impasse em que nos encontrávamos, outro “ambulante” tirou proveito da situação com uma proposta: fazer um caminho alternativo a cavalo por apenas S./45 por pessoa pelo tour + S./8 de táxi até o estábulo, que era meio longe, dividido entre todos.

Negociamos um pouco, fechamos por S./35 cada + o vendedor do tour entrar na divisão do táxi com a gente (o que resultou em S./2 por pessoa pelo táxi) e fomos. Chegando lá, cada um pegou o seu cavalo, conhecemos nosso guia (que não era tanto um guia e sim uma pessoa para “controlar” os cavalos caso acontecesse alguma coisa) e seguimos o caminho.

As paisagens são bonitas e o passeio é calmo (talvez até demais), mas gostoso de se fazer. Eu montei no Alquille e me empolgava a querer ir rápido, mas os cavalos têm uma “ética” estranha e meio que se recusam a se ultrapassar, seguindo quase numa fila indiana. O Alluan teve um pouco de dificuldade de se adaptar (ele não se dá muito com bem com animais em geral rs), mas superou o medo e seguiu sem problemas em todo o percurso.

A primeira parada foi no sagrado Templo de La Luna, onde o “guia” fica com os cavalos e nos deixa sair a explorar sozinhos. E ai está o grande problema desse passeio… Sozinhos a gente não aprende nada. Passamos por Puka Pukara, vimos algumas construções pré-incas de perto, mesa de rituais, etc, mas infelizmente jamais conhecemos a história por trás de tudo que vimos, o que naturalmente nos causou o arrependimento de não ter seguido com o tour tradicional, mais caro.

A real é que o Peru inteiro é coberto por construções Incas e na moral, tem que fazer um tour MUITO grande.

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Cusqueño

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Voltamos pelo mesmo, pegando os cavalos próximo ao Templo de La Luna e voltando ao rancho, agora num ritmo um pouco mais “rápido”, com direito a apostarmos algumas corridas, sempre ganhas pelo Blanco, cavalo do Raphael.

Do rancho até San Blas, por onde iriamos passar para voltar ao Centro de Cusco a pé, passamos do lado de parte das ruinas do complexo de Saqsaywaman. Nesse momento o arrependimento bate ainda mais forte.

Os comedores de alpacas :’(

Terminado o passeio, descemos entre as ruelas de San Blas no caminho de volta ao centro de Cusco. Já morrendo de fome, enquanto ainda descíamos as ruas, demos de cara com a placa de um lugar simples, mas com um preço honesto, e no confortável Blue Alpaca experimentamos um delicioso hamburguês de alpaca com um suco de limão por apenas S./15 por pessoa. Demorou um pouco, admito, mas da simpatia da jovem atendente até o sorriso da cozinheira, o tempo de espera foi o menor das nossas preocupações.

Pagamos e voltamos ao hostel, mas não sem antes passarmos na farmácia para o Alluan comprar Ibuprofeno, medicação que recomendaram para evitar o mal de altitude. Melhor decisão tomada! Confesso que folhas de coca em momento nenhum me pareciam fazer efeito, mas com esse remedinho, pouco sentimos os efeitos da altitude (pelo menos até a Chacaltaya, na Bolívia, mas isso vocês saberão mais para frente nos relatos).

Já era de noite, e voltamos na senhorinha que havia nos oferecido o tour barato e confiável pela manhã decididos a reservar. Infelizmente, a agência já havia fechado. E foi assim que acabamos tendo que recomeçar as buscas do zero no dia seguinte.

Um bom motivo de beber no frio: A cerveja nunca esquenta.

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Depois de enrolar bastante nos confortáveis sofás do hostel, tomar banho e nos arrumar, começamos a noite no bar, na base de Brahma e alguns drinks, onde conhecemos uma brasileira que começava naquele dia a trabalhar no bar do Kokopelli. Ela nos contou como descobriu o hostel no conhecido Worldpackers (que eu também usei recentemente, pagando, e qualquer dia desses faço um post explicando como funciona), mas entrou em contato diretamente com eles para garantir a vaga sem a necessidade de pagar a taxa. Ela foi a segunda pessoa que conheci na viagem que diz ter feito isso. Então caso seja da sua vontade fazer algo do tipo, fica a dica 😉

Uma noite abaixo das expectativas…

Algumas cervejas depois, passamos em um McDonald’s (S./19) e seguimos para uma das mais famosas boates para turistas em Cusco, a The Temple. Próximo à Plaza de Armas, ela é uma das mais famosas pois tem acordo com vários hostels da região, com hóspedes entrando de graça. E foi o nosso caso. Lá dentro, confesso, rolou a decepção após tantas recomendações…

Embora os comentários do Tripadvisor sejam positivos, para o meu gosto, a boate é MUITO turística, em um sentido negativo. A músicas são, em geral, pop music americano de no mínimo cinco anos atrás (imagine “Umbrella”, da Rihanna, como um dos hits mais recentes, pra se basear) e o público além da grande maioria de americanos e europeus, conta com algumas pessoas locais claramente sem a melhor das intenções, e por isso entenda embebedando gringos e tal.

Além disso, não parece haver um controle de idade muito eficiente, uma vez que não era incomum ver meninas peruanas (por peruanas, eu deduzo, devido à fisionomia de características andina delas) muito jovens, quase pré-adolescentes, beijando com gringos na casa dos 30 anos. Não é o tipo de situação que me deixa confortável.

Tendo tudo isso em vista, ficamos algumas horas, mas um pouco desapontados, preferimos nem beber, apenas dançar.

Se tem uma coisa que somos, independente de viajarmos juntos, é independente e, dito isso, o Alluan foi o primeiro a decidir ir embora. O Raphael ainda estava animado dançando, dai eu optei ficar com ele lá, mas uns 10 minutos depois também decidi ir, com o Raphael decidindo ficar mais um pouco, mesmo sozinho, porque as meninas do bar do hostel haviam dito que iriam para lá após o término do turno.

E assim eu me fui, sozinho, a pé, de madrugada pelas ruas de Cusco. Comentaram que não foi das decisões mais inteligente que tomamos (afinal todos nós fomos sozinhos, separadamente, de madrugada e a pé), mas a verdade é que nenhum de nós teve sensação de insegurança no caminho de cerca de 15 minutos caminhando.

Após uma boate meia boca, uma noite de sono caiu bem, mesmo sabendo que teríamos que acordar cedo para procurar um outro tour para fechar em pleno domingo.

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