Nunca um dia foi tão fácil de acordar em minha vida. Eu sei, estava muito ansioso.

Antes de começar a leitura, aconselho que escute em conjunto esse som.

Mesmo depois de todo aquele caminho até chegar em Águas Calientes, confesso que acordar 4:30 da manhã foi moleza. Despertei o Alluan e arrumamos nossas coisas de fininho para não acordar o Vitor e a Ema (nossa companheira da Inca Jungle), já que eles iriam subir até Machu Picchu de ônibus, mais tarde.

Foi combinado de encontrarmos todos que iriam subir a trilha na porta do hostel. Descemos e encontramos nosso guia e o grupo, e ele nos indicou o caminho. A partir dali, seguiríamos sozinhos e encontraríamos ele somente no final da trilha. Eu e Alluan fomos os primeiros a nos despedir e seguir o caminho pela rua escura.

Naquele dia não teve café da manhã, mas na noite anterior recebemos alguns suprimentos para sairmos alimentados. Ganhamos um pão, suco, chocolate e algumas frutas, foi o suficiente para a subida.

Lá estávamos nós, a caminho do lugar mais esperado da viagem por mim.

Estava tudo muito escuro e mais uma vez tiramos proveito da lanterna do iPhone para nos guiar durante o caminho. Foi difícil de entender para onde estávamos indo, mas seguimos a orientação de ir em linha reta.

Com pouco tempo daquela caminhada sem rumo, foi possível ver um galpão onde os ônibus se preparavam para subir até a cidade perdida e algumas pessoas que também iam na mesma direção do portão, junto conosco.

Depois de uma caminhada de 5 minutos no escuro, nos deparamos com uma fila imensa.

Sim, era a fila para a trilha, ficava antes de uma ponte e havia apenas um guarda verificando os ingressos de entrada das centenas de turistas que ali se encontravam. Foi uma demora e tanto, mas foi possível a nos distrair falando com algumas pessoas na mesma situação, embora a vontade de passar logo por aquilo tudo só aumentava com o passar dos minutos.

Até que chegou o momento, era nossa vez.

O guarda verificou nossos ingressos e passamos pelo portão que dava acesso para a ponte. Dali já deu para sentir toda aquela energia de entrar num local tão especial quanto aquele. Ela cortava um rio que ia beirando pedras e florestas, enquanto eu me sentia entrando naquele famoso armário de acesso à Nárnia.

Sem mais delongas, é hora de suar a camisa

Ao passarmos pela ponte iniciamos a trilha. O sol ainda se escondia e depois de alguns minutos de caminhada ele foi dando as caras entre as montanhas. Uma vista linda, onde as nuvens se misturavam com toda aquela luz.

Estava bem frio ainda, mas depois de um tempo com o esforço que fazíamos o calor foi dando oi. Eu estava de calça e totalmente de preto, sofri um pouco, mas isso porque tinha me preparado para seguir direto para hidroelétrica de lá, já que íamos para Cusco sem poder das tchau a Águas Calientes.

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A trilha não é lá das mais difíceis, aliás, difícil mesmo é achar algo tão cansativo quanto o trekking do Valle Del Colca.

É uma subida de cerca de uma 1h e 30m, que seguia entre a mata e cortava a estrada onde seguiam os ônibus. Sempre assim, um pedaço de mata e outro de estrada. Era como se subíssemos pelo mesmo caminho que os ônibus, mas por meios de atalhos entre as entradas.

Ela é realmente cansativa sim, sofremos um pouco até chegar ao topo. Foram as 1h e 30m mais longas da minha vida, já que eu só conseguia pensar no que iria fazer quando chegasse lá.

Quando chegamos no topo, foi mais uma sensação de vitória e de superação. Isso sem contar a felicidade, já que eu estava a metros daquele lugar que namorava pelas fotos do Google.

Sério mesmo? Vamos entrar? É sério? Vou chorar gente.

Nossa, nunca vou esquecer a quantidade de gente que tinha no topo da trilha, eram pessoas de todos os lugares do mundo e de diversas etnias. Todas instaladas antes do portão de entrada, já que havia alguns vendedores ambulantes e um lugar que vendia comidas, mas eu só queria saber de entrar mesmo.

Então logo encontramos com o Vitor e o nosso grupo depois da roleta e nos preparamos para entrar. Andamos um caminho de 20 segundos depois da entrada, e a única coisa que fiz em seguida foi abrir minha boca na proporção de um bocejo e arregalar meus olhos com aquela vista que só via da tela do meu computador

Ali estávamos nós, em Machu Picchu.

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Era tudo muito maior do que eu imaginava e naquele momento foi fácil perceber porque os Incas veneram tanto a natureza. Havia luzes do sol cruzando as montanhas e a natureza se encaixava perfeitamente com cada parte da construção. Aquelas luzes iam dominando as montanhas a cada minuto que passava e criava desenhos entre as montanhas em conjunto com as nuvens, era uma vista indescritível.

Em seguida o grupo foi separado por pessoas que queriam ser guiadas em inglês e pessoas que queriam ser guiadas em espanhol. Fomos juntos com o grupo do espanhol.

Subimos uma escada e paramos numa área gramada, onde fica localizado os terraços de agricultura e que dava para ver perfeitamente o amanhecer. Nosso guia começou a nos contar toda a história de Machu Picchu, desde quando o Peru foi invadido pelos espanhóis, até mesmo como funciona a preservação do local.

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Explicou que aquela área ainda está intacta por conta dos espanhóis não terem localizado, mas mesmo assim toda a população de lá havia evacuado a terra e por isso a cidade estava completamente abandonada.

Falou sobre a divisão da área agrícola e urbana da cidade, e depois de sairmos do terraço agrícola caminhamos juntos pela área urbana enquanto ele comentava sobre algumas construções, na qual se destaca a zona sagrada com templos, praças e mausoléus reais. Logo depois de algumas explicações fomos liberados para explorar a cidade sozinhos.

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Vitor estava um pouco cansado e não conseguiu nos acompanhar, mas eu e Alluan, apesar da trilha, estávamos dispostos a gastar toda nossa energia para conhecer cada canto de lá. Foi aí que começamos a rodar tudo e ficarmos cada vez mais encantando com o que víamos.

Eu já disse que visitar o Peru é como dar uma volta no tempo e conhecer Machu Picchu é a expressão mais forte disso tudo.

Observar as construções, a beleza de viver entre montanhas, toda a tecnologia que eles utilizavam para viver, a conexão que tinham com a natureza, era como se contassem para nós tudo que viviam naquele lugar. É simplesmente encantador e inexplicável a sensação.

Durante a caminha por lá, foi possível ver diversos vestígios de uma civilização, que inclusive são presentes na nossa cultura hoje. Como área a agropecuária, alguns templos, praças, fontes, torres, tumbas, mirantes, campos esportivos e até mesmo sistema de abastecimento d’água. Tudo de maneira inteligente e organizada, era um povo muito simples e prático.

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Mas como qualquer brasileiro zoeiro, tivemos momentos que nos divertimos de uma forma um tanto quanto boba demais, como tentar tirar uma foto pulando em um dos mirantes e fazer um vídeo escutando funk. Das duas vezes tomamos esporro, mas pedimos desculpas e paramos um pouco de sermos anormais.

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Já andei demais, mas Alluan quer andar mais, aí eu disse tanto faz e a Puerta Del Sol fez doer meus peitorais

Alluan não cansava e depois de toda nossa caminhada na trilha e ainda dentro da cidade perdida, dessa vez fomos para Puerta del Sol. Um caminho que só havia subidas e que era necessário uma caminhada de 1h e 30m.

Apesar de muito cansativo, foi bem legal. Durante a trilha, que é beirando as montanhas que cercam a cidade, é possível ver alguns locais que pareciam pontos de paradas para as caminhadas. Havia umas construções e alguns templos também.

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E no final da subida era possível ver diversos caminhos em que a Puerta Del Sol possibilitava. Além de dar uma vista bem diferente de Machu Picchu, já que era muito distante da cidade. Não tem muito o que se ver por lá, mas talvez seja bacana para explorar mais uma área daquele local sensacional.img_8698

Corre que a gente tem hora, infelizmente

Chegou a hora de ir embora. Como teríamos que estar 14h na hidroelétrica para seguir viagem de volta a Cusco, tínhamos o tempo um pouco curto. Deveríamos sair de lá no máximo umas 11:30, para chegarmos confortáveis e no horário correto.

Saímos da cidade triste e seguimos para fora do portão. Dessa vez iríamos voltar o caminho completamente sozinhos, eu e Alluan, já que Vitor não estava conosco, ele já tinha seguido o caminho e nem mesmo o guia iria nos acompanhar.

Na saída comemos um sanduíche e tomamos uma Inca Cola para recuperarmos as energias, pois não tínhamos almoçado e nem mesmo iríamos almoçar. Nos preparamos para descer a trilha de Machu Picchu e fomos.

A descida da trilha foi muito mais rápido que a subida, além de não cansar, conseguimos fazê-la em menos de 1 hora. De lá fomos direto para a hidroelétrica, nem chegamos a voltar para águas Calientes.

O caminho foi o mesmo de ida que falamos nesse relato (#MochilãoCdM – Dia 11 | Inca Jungle, Peru: Tirolesa, trekking e muita natureza rumo à Machu Picchu). Era pelo caminho do trem, seguindo riachos e a natureza. Até pensamos em dar um mergulho no lago que cortava a trilha de volta, mas não tivemos coragem e nem tempo suficiente para poder tirar proveito daquilo tudo, se não, íamos ficar para trás.

Continuamos a caminhada e encontramos algumas pessoas pela trilha de volta. O caminho foi super fácil, mas chegamos na Hidroelétrica bem em cima do horário. Compramos alguns biscoitos, frutas, águas e nos preparamos para seguir 8h de viagem em uma van bem apertada, que seguiria diretamente para Cusco.

Última parada, Cusco

Confesso que estava bem exausto e o caminho da van é um tanto quanto enjoativo. Sem contar que eu não aguentava mais um CD do motorista que repetia desde quando partimos da Hidroelétrica. Um CD de música andina, com umas crianças cantando o tempo todo. Eu gosto da música nativa Peruana, mas escutá-la por mais de 8hrs é um pouco cansativo, não acha?

Por sorte eu tinha uma bateria no meu telefone que era o suficiente para eu escutar minha música. Liguei ele, botei meu fone e consegui relaxar um pouco na viagem, com companhia da minha playlist favorita.

A van anda beirando um precipício entre diversas montanhas e muitas curvas que podem fazer qualquer um vomitar. Acordei diversas vezes durante o caminho, estava me sentindo sujo, cansado, suado e todo tipo de sentimento que se tem após dias de trilhas.

Antes de anoitecer paramos em um local para lanchar e assistir o por do sol e nosso fim de tarde foi da seguinte maneira.

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Ao anoitecer mesmo sem condições de prestar atenção em sequer uma palavra que o Vitor ou o Alluan diziam, em uma das vezes que acordei tive que admirar o céu. Mais um vez o Peru deu show com aquele céu estrelado sem igual.

Conseguia ver diversas estrelas e muitas coisas que não fazia a mínima ideia do que poderia ser. O balançar da van fazia com que o parecesse que o céu se movia por cima da gente e em um momento dormi com aquela linda cena na minha cabeça. Estava doido para comentar mais uma vez sobre o céu com o Alluan, mas não queria fazer barulho lá, estavam todos muito cansados.

Chegamos em Cusco, fomos para o nosso hostel. Só deu tempo de tomarmos banho, voltarmos ao nosso quarto, atualizar nossas redes e ficar o resto da noite pensando em como foi aquela experiencia. Enfim, tínhamos que dormir, porque o próximo dia também era cheio.

Antes de fechar os olhos senti no meu corpo uma energia sem igual, a vontade de voltar ao passado e entender tudinho de perto se mantém até hoje em mim. Eu sei que no tempo eu não posso voltar, mas eu também sei que em Machu Picchu posso, e sem dúvidas voltarei outro dia.

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