A experiência de um tour vivencial

Como dito no último relato, terminamos nossa passagem de 1 semana por Cusco/Machu Picchi ainda mais apaixonados pelo Peru (contenha-se com o trocadilho) e embarcamos para nosso último destino no país antes de atravessarmos a fronteira para a Bolívia.

Frio panorâmico

Saímos na noite anterior da rodoviária de Cusco por volta das 23h, para uma viagem de 7h até Puno, cidade que fica às margens do Lago Titicaca, O MAIOR LAGO NAVEGÁVEL DO MUNDO.

A passagem foi comprada na hora, e dentre a pesquisa de custo/benefício, optamos por “semi-camas panorâmicas”, os primeiros lugares do 2º andar do ônibus. No começo foi bom, mas quando o ônibus sai da cidade e embarca no breu da estrada nublada, a visão da escuridão te puxa para fora e parece que o frio toma conta de tudo e você começa rezar para conseguir dormir. Em algum momento eu consegui.

Puno

Chegamos em Puno com o dia já amanhecendo, em busca de fechar o Tour de 2 dias pelo Titicaca, principal, para não dizer única, atração da cidade. Logo que descemos do ônibus, fomos abordados pelas agências de viagem que ficam no próprio terminal rodoviário. E como tudo é negociável no Peru, de fato foi vantajoso não ter fechado o tour com antecedência.

Conseguimos um bom preço para o três, preparamos nossas mochilas de ataque, deixamos os mochilões em uma salinha da agência e fomos dar uma volta pelas redondezas da rodoviária enquanto aguardávamos a saída da van, que nos levaria ao porto de onde partiria o tour.

Não chegamos a andar muito, mas foi possível notar que Puno, em uma manhã fria, parecia uma cidade bem pacata, com ruas estreitas e casas humildes que pareciam ser obras inacabadas na grande maioria (li em outro relato que isso talvez ocorra para que paguem menos impostos).

Caminhamos um pouco na rua em volta da rodoviária, onde tinham alguns hotéis e lojas ainda fechadas, e voltamos para aguardar a saída do tour.

Depois do transfer nos deixar no pequeno porto de Puno, que fica a poucas quadras da rodoviária, demos inicio a viagem pelo Titicaca até a primeira ilha/destino.

Lago Titicaca

O sol da manhã refletido no gigante lago junto a um homem local que tocava música folclórica em troca de uns trocados, tornou o momento contagiante. <3

Após Cusco, seguimos para Puno e o grandioso Lago Titicaca, bailando ao som de muita música nativa.

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O Lago Titicaca é o maior lago navegável do mundo e está a 3800 metros de altitude. Se encontra entre o Peru e a Bolívia, e pela grandiosidade, teve e tem grande importância para cultura dos diversos povos andinos, principalmente os Incas, em que segundo uma lenda, tiveram surgimento em uma das ilhas dali.

Depois de alguns minutos navegando, chegamos nas Islas Flutuantes de Uros, primeira parada do tour de 2 dias.

Ilhas Flutuantes de Uros

A existência das Islas de Uros data de um período pré-colombiano, quando um povo homônimo desenvolveu esta forma de habitação. Cada uma das pequenas ilhas são feitas à base de totoras e é necessário constante trabalho de manutenção para assegurar a flutuabilidade delas. As principais atividades dos moradores são a pesca, o turismo e a venda de artesanato. Além de um dialeto próprio, eles têm como língua oficial, o aymara, uma das principais línguas indígenas que sobreviveram a colonização espanhola.

No curto tempo que ficamos, pudemos entender um pouco da técnica que permite que as ilhas flutuem, além de conhecer um pouco mais da cultura e administração das ilhas, através de uma palestra dada por uma nativa, traduzida para o espanhol pelo nosso guia Alejandro.

Depois somos convidados a visitar uma das casas de palha, onde é nos contado mais um pouco sobre como eles vivem. Nesse momento há um certo drama para nos fazer comprar algum dos caros artesanatos. Fica um clima meio chato, mas nada que não dê para escapar sorrindo. Eu comprei um cordão. 😉

Logo após, ainda é oferecido uma passeio na embarcação tipica de Uros por 10 soles até uma ilha/praça flutuante, onde tem mais artesanato para ser comprado.

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Se joga na trip! #MochilãoCdM

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Depois dali, seguimos em uma viagem de 3h pelo lago até o segundo destino, a Ilha de Amantani, onde passaríamos a noite em uma casa de nativos.

Ilha de Amantani

Chegamos no início da tarde na ilha e assim que desembarcamos fomos recebidos pelas famílias que iriam nos acolher naquela noite. Cada grupo de 2 a 4 turistas ficaria na casa de uma delas. O turismo vivencial é um dos principais recursos dos nativos que vivem também do artesanato e da agricultura.

Depois de sermos apresentados ao nosso host, Teodôncio, caminhamos por alguns cansativos minutos até sua casa na parte alta da ilha. E a cada subida, a vista da ilha com o Titicaca ao fundo ia ficando mais incrível, nem a fome e o cansaço de um mini trekking na altitude conseguiram atrapalhar o momento.

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Quando enfim chegamos na pequena casa, Teodôncio nos levou ao segundo andar, onde havia um quarto preparado para nós com 3 camas. Pudemos descansar um pouco e logo fomos chamados para almoçar em uma humilde cozinha em que sua esposa, Catalina, preparava uma comida caseira, eleita um dos melhores pratos da viagem.

A pequena cozinha com as panelas na lenha lembrava aquelas tradicionais cozinhas do interior do Brasil. Catalina, sempre sorrindo, nos serviu conversando em quéchua com seu marido, que traduzia algumas coisas em espanhol para gente. Uma visão e experiência bem doidas e emocionantes ao mesmo tempo.

Depois da sopa de quinoa, legumes cozidos e chá mate de muña (uma erva cheirosa parecida com nosso hortelã), voltamos ao nosso quarto para descansar e aguardar a hora marcada para irmos visitar com nosso guia, Alejandro, o Templo de Pachamama que ficava no topo da ilha.

Templo da Pachamama

Acabei indo sozinho, porque Vitor e Raphael dormiram e não quiseram levantar para ir. Teodôncio me levou até o caminho no qual o grupo de turistas passaria e quando chegaram, subi com eles. Até chegarmos ao topo, Alejandro explicava um pouco da história da ilha e de seus habitantes.

A ocupação da Ilha de Amantani e o desenvolvimento das terrazas para a agricultura datam de um período pré-inca. Tomada pelos espanhóis durante a conquista espanhola, hoje a ilha conta com 10 comunidades compostas por famílias com descendências européia e andina.

Quando ao chegamos ao pequeno templo de pedra da Pachamama, Alejandro explicou um pouco da festa dedicada a Mãe Terra e ao Pai Terra que acontece em janeiro, único momento em que o templo é aberto. Era fim da tarde e mesmo com um frio desnecessário, após empilhar as tradicionais pedras em oferecimento a Mãe Terra, nós, os estrangeiros, ficamos para ver o pôr de sol que começava a se desenhar no horizonte do Titicaca.

Fiquei até o sol sumir por completo, sentado em uma das pedras, contemplando uma das cenas mais lindas da minha vida.

O frio pôr do sol na Ilha de Amantaní.

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Depois do espetáculo, desci pelo caminho sem saber se conseguiria encontrar a casa de Teodôncio e Catalina naquele inicio de noite e escuridão. Para minha sorte e surpresa, Teodôncio me esperava no meio do caminho, o que me deu um pouco de culpa por ter demorado tanto assistindo o sol. :/

Quando cheguei no quarto, Raphael e Vitor já estavam acordados. Conversamos um pouco e fomos chamados para jantar mais uma sopa deliciosa preparada por Catalina.

Depois do jantar, ajeitamos nossos gorros e vestimos os ponchos, trajes típicos andinos que foram emprestados pela família. Descemos juntos com Teodôncio, na escuridão da ilha, em direção ao espaço em que aconteceria uma animada festa com os turistas daquela noite e os nativos.

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Nós de poncho e nossos gorros andinos

Bailamos ao som de música folclórica andina, tocada por flautas e outros instrumentos. A contagiante coreografia em roda era similar a das nossas festas julinas. O que ficou ainda mais engraçado com os homens trajando o poncho e as mulheres as tradicionais saias coloridas da cultural andina.

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Tinha cerveja sendo vendida, inka cola e outras bebidas também. Bebemos pouco, dançamos muito e conversamos mais com outras duas brasileiras que também estavam fazendo o tour: Fernanda e Tatiana, duas paulistas que ajudariam tornar o segundo dia desse tour tão foda quanto esse primeiro.

Depois da festa, subimos de volta a nossa casa, acompanhados por Teodôncio e um céu estrelado capaz de quase fazer esquecer o frio. Devolvemos e agradecemos nosso poncho, e fomos dormir maravilhados como crianças bobas pelo primeiro dia no gigante Titicaca.

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