De cemitério de trem a hotel de sal desativado

Chegamos bem cedo em Uyuni, antes do Sol, depois de uma longa, escura e muito fria viagem por regiões desertas que havia começado em La Paz na noite anterior. Ao descermos do autobus, as senhorinhas das agências já nos aguardavam, oferecendo os tours em meio a escuridão. Mal havíamos descido do ônibus e Vitor já negociava com uma delas que cedeu ao preço que queríamos com o combinado de não falarmos esse valor para os outros turistas.

Fechamos com a agência Sumaj Jallpha por Bs642 para cada, cerca de R$290.

O tour de 3 dias e 2 noites é o clássico em todas agências que pouco diferem uma da outra. Ele também pode ser fechado em La Paz ou no Atacama, para que vem de lá, poréeem, é muito mais em conta fechar diretamente em Uyuni.

Com tudo acertado, entramos os três na pickup que nos levou até o escritório da agência. E lá permanecemos agradecendo o sistema de calefação enquanto amanhecia o dia.

A rua da agência

Depois do sol a vista, como iriamos pagar o tour no cartão, fomos levados até uma outra agência na praça central da cidade. Raphael estava com dor de barriga devido ao dia anterior e aproveitou para ir no banheiro em um restaurante. Depois tomamos um delicioso café da manhã em um outro restaurante, chamado Boca Grande, e voltamos à agência enquanto a cidade, que não parecia ir muito além daquela praça, terminava de acordar.

Na agência, depois de conhecermos nosso guia/motorista e também os 3 viajantes que nos acompanhariam no tour: um casal de brasileiros e um europeu, partimos em direção ao deserto. Nossos mochilões foram em cima do carro e em nossos colos somente a mochila/bolsa de ataque.

Cemitério de Trens

Ainda próximo da cidade e já começando a se maravilhar com a dimensão branca do deserto de sal, chegamos em nossa primeira parada, o Cemitério de Trens.

Um lugar com diversas carcaças de trens que no meio de um cenário surreal, se tornam mais surreais ainda. As velhas locomotivas são o que restou de uma grande ferrovia boliviana que, durante o século XIX, transportou minerais extraídos da região até o porto da cidade de Antofagasta, que hoje pertence ao Chile. Com a crise de 1929, a escassez de minérios e a perda do litoral para o Chile, os trens foram sendo desativados e a ferrovia boliviana padeceu ali, em meio ao Salar.

O cenário rende várias fotos incríveis além de uma reflexão sobre a vida, ilustrada por uma poética frase em espanhol escrita em um dos trens:

“ASI ES LA VIDA”

Depois de muitas fotos, rumamos para um pequeno povoado, o Vilarejo de Colchani, onde podia se comprar, além de muito artesanato, biscoitos e papel higiênico para quem não havia se preparado. Tirando algumas peças feitas de sal, o artesanato não difere muito das que encontramos em La Paz e nas cidades do Peru, até porque são países também influenciados por uma mesma cultura.

Após algumas compras, seguimos viajando no sal até o local em que almoçaríamos. Antes disso, ainda paramos para ver alguns dos ojos del salar, locais no deserto em que se brota água através de estranhas borbulhas.

Hotel de Sal

E cheios de fome, chegamos ao famoso Hotel de Sal. Desativado por conta das diversas dificuldades de se manter um hotel no meio de um deserto, hoje ele serve apenas para que os tours possam preparar as quentinhas trazidas e servir em suas grandes mesa de sal, a propósito, tudo é de sal por ali.

Perto do Hotel também existe um grande monumento ao Rally Dakar, a mais longa competição de rali que inclui o deserto em suas provas. Há um espaço cheio de bandeiras também que eu imagino que sejam de países que competem no Rally.

Depois do almoço com nossa equipe, o bonde do nosso tour, tivemos um tempinho para tirar as tradicionais fotos em perspectiva e se maravilhar ainda mais com a imensidão desse puta deserto de sal!

 

Para efeitos de surrealidade, o Salar de Uyuni  é a maior planície de sal do mundo, com 10.582 quilômetros quadrados. É resultado de transformações entre diversos lagos pré-históricos. Coberto por alguns metros de uma crosta de sal, o Salar tem um nivelamento extraordinário e contém em sua profundidade até 70% das reservas mundiais de lítio, recurso ambicionado e que está no processo de ser extraído.

Voltando a 4×4, viajamos por mais algum tempo babando pela imensidão branca até chegarmos em nossa próxima parada:

Isla Incahuasi

Uma ilha de pedras no meio do salar que abriga gigantes e milenares cactos que superam até os 10m de altura! A entrada na Isla não é incluída nos pacotes oferecidos pelas agências, e custava 30 Bs. Resolvemos não pagar e subir apenas até onde nos era permitido. Aproveitamos para ir no banheiro também, apesar de descobrirmos depois que só era permitido para quem tinha pago a entrada. Paciência.

Nesse momento do tour tivemos um tempo bem grande para tirar mais fotos e explorar mais o Salar, caminhando pelos hexágonos formados no chão, tacando pedras de sal uns nos outros e é claro, lambendo o chão pra ver se é mesmo salgado. Já adianto que não é tão salgado quanto o sal depois de refinado.

Vitor resolveu mergulhar no sal. Saiu ralado depois

Caída del sol

De volta a nossa 4×4, o sol começava a ir embora, dando lugar a um frio do caralho e a uma sensação térmica à la socorro que nos fazia questionar o porquê de termos decidido ir a esse lugar quase no inverno. Depois de um tempo se enfiando ainda mais no deserto, nosso motorista para o carro para que possamos assistir o pôr do sol.

E que por do sol.. PQP!!

Depois de agradecer muito a Deus, a vida e a Pacha Mama por aquele momento, voltamos ao carro e seguimos em direção ao alojamento em que passaríamos a noite.

Buenas noches

Com a noite já se fazendo presente, chegamos ao nosso hotelzinho.

O lugar era bem apresentável, todo feito de sal, como tudo naquele deserto. Nosso guia/motorista nos alocou em um dos quartos de 3 camas e tivemos alguns minutos para relaxar antes da janta.

De entrada, tomamos uma sopa e depois um prato de frango assado delicioso. Depois de satisfeitos, para quem deseja enfrentar o frio, há um chuveiro de água quente à gás em que é cobrado 10Bs; Optei por tomar banho e me surpreendi com água fervendo. Havia outra saída de água gelada para ir regulando a temperatura, mas quando eu abria gelava tudo, então preferi de pulos em pulos tomar banho na água fervendo.

No salão do hotel/alojamento havia alguns jovens de outras agências jogando algum jogo que parecia muito engraçado. Eu, cansado e com frio, fui pro quarto, onde já estavam Vitor e Raphael.

E assim, no meio do maior deserto de sal do mundo, cercado por paredes de sal, dormimos agradecendo pelo colchão ser de mola e espuma.

 

 

 

 

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