O dia em que a lua me traiu

Segura a marimba que, diferente de ontem, esse dia foi longooo para carajos!

Acordamos antes do sol e antes do mundo saber o que é calor, para irmos ao nosso 3º tour no Atacama: Geysers El Tatio + Vado Putana + Povoado de Machuca, fechado juntamente com os outros, no primeiro dia.

A van da agência nos pegou ainda de madrugada para que chegássemos ao geysers antes do sol nascer. A viagem dura cerca de 2h, saindo da altitude de 2.400m de San Pedro, até 4.300m do campo geotérmico del Tatio. Por isso não é um tour recomendado para quem ainda não está bem aclimatado. Para nós que já tínhamos sofrido no Canion del Colca, Peru, e no Chalcataya, Bolívia, já estávamos mais do que aclimatados e a altitude nem foi notada.

Por outro lado, ao chegarmos no campo e sairmos da van antes do sol sair para o mundo, a temperatura abaixo de zero estava de matar. Fazia muito frio e um vento safado ainda lascava com tudo. Nem todas as camadas de roupa estavam dando conta. Sorte a nossa que havia ali um espetáculo da natureza para contrapor todas essas condições.

Os geysers começando a entrarem em ação

Geysers del Tatio

Geyser é um tipo de vulcanismo, onde uma nascente termal entra em erupção periodicamente, lançando uma coluna de água quente e vapor de ar. Em nosso tour pelo Uyuni já havíamos tido contato com esse fenômeno, mas de fato, os de El Tatio são sem comparações. Além da tamanha diversidade presente nesse campo geotérmico, a altura que os vapores de água atingem é muito maior.

E tudo fica ainda mais lindo com o nascer do sol que deixa o cenário ainda mais “pqpp q lugar é esse??” Depois de uma breve história e alguns avisos de segurança de nosso guia, que inclui o relato de um garoto que morreu por cair acidentalmente em um dos geysers, ficamos livres para tirar fotos, atentos às pedras coloridas que sinalizam a distância permitida.

Após o nascer do sol, as atividades começam a murchar e as águas a se conterem em seus subterrâneos. Somos convidados então para um café da manhã, com leite e café quente, e sanduíches.

Depois seguimos para uma piscina termal, onde é possível tomar um banho quente. O frio havia amenizado UM POUCO por conta do sol, mas como eu já havia experimentado as águas termais em Uyuni, resolvi permanecer em minhas camadas de roupa. Vitor e Raphael enfrentaram o frio e entraram.

Vado Putana

De volta a van, realizamos uma parada para ver a beleza da região do Vado Putana com seu Rio La Putana. Nesse momento caminhamos um pouco e tivemos algum tempo para tirar fotos enquanto nosso guia falava da importância dos rios para preservação do ecossistema em meio ao deserto mais árido do mundo.

Povoado Machuca

Ainda no caminho de volta a San Pedro, visitamos o Pueblo de Machuca, uma vila bem root com apenas uma rua central de terra. Tem em torno de umas 20 casas e uma das igrejinhas mais antigas do Chile.

Em cima de todas as casas tem uma cruz, que hoje representa proteção espiritual, mas na época da colonização era para evitar o risco dos cristãos espanhóis tacarem fogo na casa. A pausa no povoado serve também para comer alguns dos lanches preparados pelos nativos, como empanada de queijo de cabra e churrasco de lhama.

Raphael e Vitor se deliciaram com alguma coisa enquanto eu subi o morrinho da igreja para tirar algumas fotos.

No caminho de volta, o deserto e suas paisagens, agora visíveis, eram de deixar qualquer um maravilhado. <3

Chegamos em San Pedro por volta das 14h e logo saímos para almoçar em um dos agradáveis restaurantes da cidade com um preço não tão salgado, se chamava Sol e Cor. O lugar oferecia feijoada no cardápio, mas segundo um dos garçons, que era brasileiro, havia acabado. Comemos outro prato então com a tradicional sopa de entrada e ainda bebemos, Vitor e Raphael, cerveja, e eu, um pisco sour, o tradicional drink de Peru-Chile.

Quando voltamos do almoço, Vitor e Raphael resolveram ficar descansando no hostel, eu, meio animado ainda pelo pisco, e motivado pela regra de que descansar só no túmulo, juntei minhas moedinhas e aluguei uma bike no hostel.

Era nosso último dia no Atacama e eu não gastaria minha tarde deitado numa cama do hostel mexendo no celular /indireta. O hostel oferecia uma mapinha com os principais pontos do Atacama que é possível chegar pedalando e seguindo a dica do staff decidi ir até Pukará de Quitor.

Pukará de Quitor

Pukará de Quitor foi uma fortaleza pré-inca toda de pedra, construída pelos índios atacameños para se defenderem de invasões, inclusive dos incas e posteriormente dos espanhóis.

O sítio arqueológico fica a 3 km de San Pedro e a viagem de bike durou cerca de 30 deliciosos minutos. Eu amo andar de bicicleta e sentir o vento do deserto na cara foi libertador. Combinado também pelo fato de estar sozinho, sem nenhum guia e sem meus amigos, esse momento da viagem foi especial. Foi bom estar sozinho, mesmo me perdendo em algumas partes.

Uma das melhores formas de se conhecer um lugar.

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O caminho é de terra e há momentos em que é preciso atravessar com a bicicleta um riacho que te acompanha pelo percurso todo. Aproveitei inclusive para beber água nele, já que não tinha levado garrafinha e ainda estava sem um tustão. Estar de chinelo ajudou nesse momento molhado.

Chegando a Pukara, é possível pagar cerca de R$15 para conhecer um pequeno museu e subir o sítio arqueológico por algumas trilhas, ou se pode seguir um pouco mais adiante e pagar cerca de R$0 para ver algumas ruínas da parte externa do sítio. Por questões de não estar com dinheiro, escolhi a segunda opção.

Um rosto gigante talhado na pedra guarda uma das entradas da fortaleza

As ruínas de Pukara não estão tão bem preservadas mas o que restou do trabalho talentoso nas pedras junto ao cenário do Atacama ainda são de surpreender qualquer um. Subi as pedras e fiquei por ali pensando na vida e em tantas outras coisas até o sol começar a se pôr.

Minha sombra sobre a pedra e o gigante Vulcão Licanbur lá no fundo

No caminho de volta resolvi voltar pelo outro lado do rio e me perdi em um momento também, mas graças a Pacha Mama, quando o sol se pôs eu já estava de volta a San Pedro.

Tendo algum tempo ainda com a bike, dei umas voltas pela cidade e suas ruas de pedra e então voltei ao hostel ansioso para o Tour Astronômico que faríamos naquela noite.

Tour Astronômico

Em nosso planejamento, não estaríamos mais no Atacama nessa noite, e sim dentro do ônibus em uma viagem de 24h rumo a Santiago.  Porém, havia um tour a ser feito, indispensável para nós, mas principalmente para mim.

Quem me conhece sabe que sou apaixonado por céus estrelados e desde o momento que eu sabia que iria para o Atacama eu sonhava com o tour astronômico do lugar tido como o mais ideal do mundo para se admirar o céu.

Porém, contra todo esse sonho, havia uma lua, uma caralha de Lua cheia. Na noite anterior havíamos pesquisados o valor do tour, inclusive na agência mais topzera, Space, que nos informou que não realizaria o tour por conta do período de lua cheia. Outras também disseram o mesmo, dizendo que talvez no outro dia as condições estivessem melhores.

Ficamos mais uma noite no Atacama por conta disso e quando partimos com a van para o local com os telescópios de uma das poucas agências que estavam realizando o tour naquela outra noite, a lua cheia já estava no céu pronta para nos fuder e ofuscar todas as estrelas com sua luz recalcada.

Enquanto dois guias explicavam em espanhol, sinalizando com um potente laser algumas estrelas e constelações, nós e mais alguns outros turistas, entre eles dois casais de brasileiros, nos dividíamos entre os dois telescópios para ver o céu.

Foi uma experiência incrível, o céu estava lindo de estrela se comparado às nossas cidades grandes, pudemos ver alguns conglomerados, alguns planetas, como saturno e seus anéis, mas no final, quem roubou a cena mesmo e estragou a possibilidade de a noite ser ainda mais foda, foi ela, a viada da lua.

Tiramos algumas fotos dela pelo visor do telescópio e depois fomos convidados a entrar e tomar um chocolate quente com biscoitinhos. Com o tour lunar encerrado, voltamos para San Pedro e descansamos, metade felizes, metade decepcionados e eu completamente puto com a lua e certo de que voltaria ao Atacama uma outra vez.

E com toda certeza, não seria em noites de lua cheia.

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