Convidada a escrever sobre o tema: “mulher viajando sozinha”, penso numa minha experiência pessoal deste tipo. Aprendemos a cruzar esta barreira da dominação masculina e nos tornamos capazes de fazer uma viagem sem o cerco social que nos governa, sem os pais, sem amigos, e principalmente, sem namorado ou marido, que costuma ser o parceiro habitual em nossas viagens recreativas.

 

10561646_700705110037791_6891953839963539776_nA experiência é, digamos, expansiva. Senti minha alma expandir numa viagem que fiz sozinha, após a separação de um casamento. Exercita-se ser mulher viajando sozinha. Todas as “saias justas e jogos de cintura” próprios de ser mulher são ali colocados em prática. Enfrenta-se o preconceito que dizem por aí que não existe, que é histeria nossa: aproximações masculinas muito incisivas… desconfianças… Além das dificuldades próprias da autonomia: não vai ter ninguém pra matar a barata que aparecer no quarto da pousada, ninguém para abrir qualquer pote, ninguém para dirigir… só você. Assim como só você será responsável por si mesma: ninguém para dividir as contas, ninguém para conversar na hora de dormir, ninguém para ajudar se você estiver bêbada.

Percebi como eu administrava meus contatos com as pessoas desconhecidas com quem eu, sozinha, tinha que lidar. Eu costumava sorrir muito (porque mulher, dizem por aí, tem que ser amável sempre) para facilitar as interações. Tendo que tomar conta do tamanho e do jeito do sorriso se você estiver lidando com um homem, para não ser mal interpretada. Nossas conhecidas gaiolas. Mas a viajante precisa se preservar porque já está exposta. Está indo na contramão do sistema de dominação de gênero que diz que mulher tem que estar enraizada no lar. Você pode ousar vez por outra, mas precisa sentir cada contato com cada pessoa e ver como cabe agir ali para você não se estrepar.

Andei por ruas desertas e escuras, da pousada até o centro da cidadezinha serrana, mas nunca esquecia de trancar a porta do quarto, quando entrava. Era uma pousada isolada. Dancei forró com um velho bêbado, mas tive cuidado com a proximidade de seu corpo; mantive certa distância. Você tem que tencionar essa corda que se chama moral machista até o limite em que ela pode se romper e te prejudicar ou te expor ao perigo. Ali você para -que ninguém é trouxa! Tem que ter sensibilidade e intuição para ver quando você estica a corda e diz “aqui pra você, machismo!”, e quando você a afrouxa e diz: “sou mulher, com todas as fragilidades que a cultura me atribuiu”. Quando você pode dançar ou não com um desconhecido, em que ruas deve passar, como administrar seus sorrisos… (é uma chatice ponderar essas coisas sob a ameaça do risco de sofrer violência, mas o que se pode fazer?) A gente dança conforme a música. Mas dança do nosso jeito. E logo haverá novos passos e novas leituras do mesmo ritmo. E quem sabe até mude o ritmo, ao se vislumbrar os passos sempre novos.

13162237_1119343668124876_1117828196_nE minha viagem teve gente passando pela minha vida, pessoas que talvez estejam lá quando eu voltar, lugares que eu fui e outros que ainda quero ir, quando voltar àquela cidadezinha… teve comida gostosa: feijoada (meu prato preferido), crepes da Catalunha, cervejas artesanais da produção local… teve lugares bonitos: um restaurante todo colorido, caminhos cheios de mato perfumado, belas casas pra se olhar e dizer: “queria morar aí!”, árvores cheias de flores: ipês, quaresmeiras, flamboyants… Teve friozinho e sol da manhã. Teve folhas levadas pelo vento, quando eu espiava da janela. Teve banho de piscina. Teve festa de São Pedro. Teve uma cama boa. Teve eu. Eu pra conversar comigo, eu pra ponderar e escolher onde comer, eu pra me virar nos perrengues… me ensinou muito. E me deixou mais forte. Recomendo.

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